Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

Trabalhadores de cadeias de frutas estão entre os 20% mais pobres do Brasil

Baixa renda, trabalho temporário e constante exposição a agrotóxicos impedem milhares de famílias de terem uma vida digna, revela relatório Frutas Doces, Vidas Amargas.

09/10/2019 Tempo de leitura: 3 minutos
 

Relatório da Oxfam Brasil, “Frutas Doces, Vidas Amargas”, revela que baixa renda, trabalho temporário e constante exposição a agrotóxicos impedem milhares de famílias de terem uma vida digna.

O Brasil é hoje o terceiro maior produtor de fruta do mundo e a região Nordeste se destaca como grande polo desse cultivo no país. As frutas que chegam à mesa de milhões de pessoas no Brasil e no exterior geram cerca de R$ 40 bilhões por ano, mas não garantem salários e condições dignas a grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras que estão no campo plantando e colhendo. É o que revela o relatório “Frutas Doces, Vidas Amargas”, que estamos lançando nesta quinta-feira (10/10).

Pobreza, contaminação, condições degradantes de trabalho e desrespeito às mulheres são alguns dos muitos problemas que estão por trás das frutas brasileiras.

Segundo dados que levantamos em nossas investigações, trabalhadores e as trabalhadoras safristas que atuam nas cadeias de melão, uva e manga no Rio Grande do Norte e perímetro irrigado do Vale do rio São Francisco (Petrolina/Juazeiro) estão entre os 20% mais pobres da população brasileira. Além disso, vivem em constante ameaça de contaminação por agrotóxicos, trabalham muitas vezes sem as condições básicas necessárias e estão presos a um ciclo de pobreza, muitas vezes mal tendo o que comer.

“Nosso relatório revela o sofrimento de muitas famílias e as desigualdades na cadeia de produção e venda das frutas brasileiras, do campo aos supermercados”, afirma Gustavo Ferroni, coordenador de Setor Privado e Direitos Humanos da Oxfam Brasil e responsável pelo relatório “Frutas Doces, Vidas Amargas”.

Campanha pede para que supermercados façam a sua parte

Capa do relatório Frutas Doces, Vidas Amargas - a história dos trabalhadores por trás das frutas que comemos.

O relatório vem acompanhado de uma campanha para que as grandes redes brasileiras de supermercados – Carrefour, Pão de Açúcar e Big (ex-Wal Mart) – assumam sua responsabilidade pela situação dos trabalhadores nas cadeias de frutas no país.

Na página da campanha é possível assinar uma petição pedindo para que os supermercados liderem mudanças no setor, dando mais dignidade à vida das pessoas que trabalham no plantio, colheita e processamento de frutas.

Supermercados têm poder de negociação na cadeia de frutas

“Esses supermercados têm poder de negociação na cadeia da fruticultura brasileira e, por essa razão, podem exigir de seus fornecedores uma maior transparência em cada etapa da produção dos alimentos que vendem”, afirma Gustavo Ferroni.

Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil, lembra que a fruticultura é em geral celebrada como atividade emblemática do potencial do semiárido brasileiro, uma cadeia de produção moderna do país e geradora de milhares de empregos.

“Nosso relatório, entretanto, revela que ainda existem problemas graves que precisam ser enfrentados. As pessoas que estão colhendo as frutas que chegam às nossas mesas têm o direito a ter uma vida digna. E os supermercados têm o dever e a responsabilidade de ajudar a mudar esse preocupante cenário que estamos apontando”, afirma Katia.

Você pode ajudar a mudar essa situação. Assine nossa petição!  

A Oxfam Brasil analisou as cadeias de três frutas importantes no Nordeste – melão, uva e manga – e verificou que algumas práticas, como a discriminação de renda contra as mulheres no campo, a não garantia de proteção adequada contra contaminação por agrotóxicos, o trabalho temporário (os chamados ‘safristas’, que atuam por tempo limitado) e condições não adequadas – especialmente para as mulheres -, são responsáveis por impedir que muitas pessoas consigam superar a pobreza.

“O argumento de que qualquer emprego é melhor que nenhum emprego coloca sobre os trabalhadores o peso de aceitarem qualquer condição de trabalho e exime setores econômicos de suas responsabilidades. Isso não é justo. A cadeia das frutas gera riqueza e é necessário que essa riqueza seja mais bem distribuída.” afirma Katia Maia.

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