Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

As primeiras 24 horas de uma emergência humanitária

Texto: Júlia Serramitjana
Fotos: Pablo Tosco/Oxfam Intermón

17 de abril de 2016. São 8 da manhã e chega o primeiro alerta à sede central da Oxfam Intermón, em Barcelona. A equipe da Oxfam no Equador informa à responsável de ação humanitária na Espanha que houve um forte terremoto (7,8 graus na escala Richter) na província de Manabí, atingindo principalmente as cidades de Manta e Portoviejo.

A essa hora, do outro lado do Oceano Atlântico, as equipes da Oxfam no Equador já se direcionam à região atingida pelo terremoto, fazendo as primeiras avaliações dos danos causados. Os integrantes dessas equipes estão todos identificados como sendo da Oxfam e estão preparados para chegar ao epicentro do desastre. Nas áreas que ainda não podem ser acessadas, parceiros locais passam informações importantes sobre o estado das coisas. A maior parte da equipe é composta por pessoas locais e, portanto, conhece bem o terreno e pode informar a melhor maneira de chegar à região afetada.

Esse é um trabalho que se faz em coordenação com outras organizações que trabalham no país, bem como o governo local e agências da ONU. Para que essa coordenação das primeiras horas seja eficiente, existem estruturas que chamamos de ‘clusters’ (grupos) que têm o propósito de organizar a assistência humanitária nas áreas atingidas. Atualmente, a assistência está organizada em nove setores: agricultura, coordenação de campos, recuperação prematura, educação, assentamentos de emergência, telecomunicações, saúde, logística, nutrição, proteção e água, saneamento e higiene.

Cada ‘cluster’ é liderado ou co-liderado por uma agência da ONU, de acordo com suas respectivas áreas de atividades relacionadas ao tema.

Os setores prioritários da Oxfam são a segurança alimentar e água, saneamento e higiene. Também são tocados projetos e programas de redução de risco de desastres em países que sofrem de maneira frequente o impacto de determinado fenômenos naturais.

ÁGUA É VIDA! >>> Conheça nosso trabalho para garantir água potável a milhões de pessoas pelo mundo.

“Nosso primeiro objetivo é ter um diagnóstico preciso dos danos para oferecer ajuda de maneira mais efetiva às comunidades afetadas pela tragédia”, explica Simon Ticehurst, diretor da Oxfam para América Latina e Caribe. “Nos coordenamos com o governo local para que nossas ações sejam complementares às das equipes oficiais.”

Durante as primeiras 24 horas, o país onde ocorreu o desastre está trabalhando contra o relógio, verificando os impactos e enviando especialistas em ação humanitária para analisar a situação: quantas pessoas precisam de ajuda, quantas moradias foram destruídas etc. Uma vez obtidos os dados necessários, são lançados os primeiros chamados para a captação de recursos – tanto públicos como privados. Após uma avaliação inicial, é hora de decidir o que deve ser enviado à região atingida.

A Oxfam conta com uma equipe humanitária global com cerca de 100 pessoas prontas para ação nas primeiras 48 horas após uma emergência. Nessa equipe há especialistas altamente qualificados para atender às necessidades da população afetada, principalmente especialistas em água e saneamento, segurança alimentar e logística.

Uma emergência humanitária pode durar até um ano. Sempre tentamos fazer com que o pessoal que atua nas emergências sejam contratados localmente, mas às vezes não há especialistas em água, saneamento e higiente, e para determinados lugares é preciso ter uma equipe internacional para um período de seis meses a um ano. Durante esse tempo, se capacita trabalhadores locais para que possam continuar o trabalho. É o que acontece na maioria das emergências causadas por fenômenos naturais como erupções vulcânicas, tsunamis ou terremotos.

A Oxfam tem planos de contingência em todos os países em que atua, incluindo a dotação prévia de materiais para atender a população em emergências mais frequentes na região. A compra da maior parte desse material (mantas, kits de higiente, filtros d’água etc) é feita sempre que possível no país afetado. Isso significa que na maioria dos países dispomos de material básico suficiente para uma primeira intervenção de urgência.

Ainda assim contamos com diversos armazéns com materiais de engenharia hidráulica e para construção de latrinas provisórias. Os mecanismos logísticos da Oxfam permitem o envio agilizado dos materiais necessários aos países afetados. Nossos armazéns estão localizados na Espanha, Panamá, Grã Bretanha e Austrália.

Para tudo isso, é preciso investir recursos antes de qualquer situação de emergência e dispor imediatamente de fundos para quando chega a crise, para assumir os custos iniciais de qualquer ação, incluindo aí a análise dos danos, que sempre vem acompanhada de uma primeira distribuição de material humanitário às populações afetadas. Graças a todas as doações recebidos, podemos reagir com nosso fundo de emergência nas primeiras 24 horas e iniciar uma resposta humanitária para as pessoas afetadas, sejam elas vítimas de uma catástrofe natural ou refugiados de uma zona de conflito.

O fundo de emergências é particularmente necessário para que a Oxfam possa atuar com rapidez também nas crises ‘esquecidas’, aquelas que têm pouca atenção das pessoas. Em todas as nossas intervenções, trabalhamos para garantir que as pessoas mais vulneráveis tenham o básico necessário, como acesso à água potável, e assim evitar o surgimento de epidemias de doenças.

Muitas vezes, em um país afetado por um conflito crônico, há novas ondas de violência que provocam o deslocamento das pessoas. Isso faz com que tenhamos que nos mobilizar novamente para atender a essa nova demanda de emergência. Em situações como as da República Centroafricana ou no Sudão do Sul, onde isso acontece com frequência, as equipes estão em estado permanente de atenção, preparados para se deslocarem pelo país. Por exemplo, a equipe da capital pode atender imediatamente a outras partes do país se há uma emergência.

As primeiras 24 horas de uma emergência humanitária

Texto: Júlia Serramitjana
Fotos: Pablo Tosco/Oxfam Intermón

17 de abril de 2016. São 8 da manhã e chega o primeiro alerta à sede central da Oxfam Intermón, em Barcelona. A equipe da Oxfam no Equador informa à responsável de ação humanitária na Espanha que houve um forte terremoto (7,8 graus na escala Richter) na província de Manabí, atingindo principalmente as cidades de Manta e Portoviejo.

A essa hora, do outro lado do Oceano Atlântico, as equipes da Oxfam no Equador já se direcionam à região atingida pelo terremoto, fazendo as primeiras avaliações dos danos causados. Os integrantes dessas equipes estão todos identificados como sendo da Oxfam e estão preparados para chegar ao epicentro do desastre. Nas áreas que ainda não podem ser acessadas, parceiros locais passam informações importantes sobre o estado das coisas. A maior parte da equipe é composta por pessoas locais e, portanto, conhece bem o terreno e pode informar a melhor maneira de chegar à região afetada.

Esse é um trabalho que se faz em coordenação com outras organizações que trabalham no país, bem como o governo local e agências da ONU. Para que essa coordenação das primeiras horas seja eficiente, existem estruturas que chamamos de ‘clusters’ (grupos) que têm o propósito de organizar a assistência humanitária nas áreas atingidas. Atualmente, a assistência está organizada em nove setores: agricultura, coordenação de campos, recuperação prematura, educação, assentamentos de emergência, telecomunicações, saúde, logística, nutrição, proteção e água, saneamento e higiene.

Cada ‘cluster’ é liderado ou co-liderado por uma agência da ONU, de acordo com suas respectivas áreas de atividades relacionadas ao tema.

Os setores prioritários da Oxfam são a segurança alimentar e água, saneamento e higiene. Também são tocados projetos e programas de redução de risco de desastres em países que sofrem de maneira frequente o impacto de determinado fenômenos naturais.

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Nepal: três anos depois do terremoto, continuamos dando apoio

Em abril de 2015, o Nepal foi atingido por um forte terremoto que deixou quase 9 mil mortos, 22 mil pessoas feridas e mais de 100 mil desalojados. A destruição estava por toda parte, alterando para sempre a vida de quase oito milhões de nepaleses que sobreviveram ao terremoto. A Oxfam esteve desde o primeiro momento ao lado dos que precisavam de apoio e ajuda, oferecendo meios para que milhares de famílias pudessem refazer suas vidas após a catástrofe.

A Oxfam atua no Nepal há 20 anos, e foi justamente isso que permitiu à organização responder de prontidão e estar do lado das pessoas mais vulneráveis no momento em que o terremoto provocou tanta destruição. A prioridade era proporcionar um lugar seguro às famílias sobreviventes antes que chegasse a temporada de chuvas e dar meios para que elas pudessem enfrentar o intenso frio da região. O trabalho da equipe da Oxfam no Nepal também incluía o fornecimento de água potável, alimentos, instalação de refúgios temporários e banheiros, para evitar o surgimento de epidemia de doenças. Nesta fase de emergência chegamos a atender mais de 400 mil pessoas.

Na segunda fase, de recuperação, nos concentramos em reconstruir sistemas comunitários de água potável e assegurar meios de vida sustentáveis para a população. Trabalhamos em planos de preparação em casos de desastre com o governo local e as comunidades. Com isso, passamos a atender mais de 600 mil pessoas.

O terremoto devastou a economia nepalesa. Houve graves danos causados às residências, ruas e estradas, e sistema de água e saneamento, com grande impacto negativo sobre a população. De 2015 a 2017, contribuímos com diversas iniciativas para dar às pessoas mais vulneráveis meios para que pudessem comprar alimentos e tivessem um trabalho temporário para garantir renda para as necessidades mais urgentes.

Esses trabalhos remunerados se concentraram na reconstrução dos sistemas de irrigação, estradas rurais e centros de armazenamento de colheitas. Os salários eram iguais para homens e mulheres.

Trabalhamos intensamente com as comunidades afetadas, instalando ou reabilitando sistemas de água, construindo moradias e banheiros nas escolas, e fazendo palestras e oficinas para explicar a importância de se garantir o máximo de higiente e limpeza nos lugares para evitar o surgimento de doenças.

Foram quase 30 mil famílias beneficiadas com salários pelo trabalho comunitário e mais de 40 mil famílias recebendo apoio econômico para a aquisição de bens básicos.

https://www.youtube.com/watch?v=whOFjJ6HS9E

Bimala Balami tem 27 anos e vive em Dachi Nkali (distrito de Katmandú, no Nepal). “Depois do terremoto, a gente não sabia como fazer para ganhar a vida. Recebi um salário em troca de trabalhar na reconstrução de um canal de irrigação. Foi de grande ajuda para as mulheres porque agora podem manter suas famílias.”

Muna Tamang passava cinco horas por dia coletando água antes do terremoto. Com o sismo, a fonte secou. Com a recuperação do sistema de água, Muna agora tem novamente água potável próximo de casa. “Não posso imaginar como seria viver aqui se a fonte não tivesse sido recuperada. A vida teria ficado muito difícil.”

Projeto de energia solar da Oxfam ilumina comunidade rural em Gana

Um projeto piloto de energia solar da Oxfam está mudando para melhor a vida dos moradores de um pequeno vilarejo no nordeste de Gana, na África. Com a energia gerada pelos painés solares, eles agoram podem estudar à noite, coletar água potável sem precisar andar grandes distâncias e armazenar vacinas no posto de saúde local.

Dez residências de Kpatua já receberam os painéis solares para serem instalados nos telhados das casas, além de 100 lâmpadas LED para serem espalhadas por outras residências, e uma bateria para armazenar energia. Outros equipamentos estão sendo usados na escola primária e no posto de saúde da comunidade, e também em um recém-instalado poço de água potável.

Felicia Ayaawin está muito feliz com o novo poço. Ela agora pode pegar água potável sem se preocupar. Felicia lembra que, certa vez quando foi pegar um pouco de água para sua família, encontrou roupas sujas no antigo – e único – poço da comunidade. “Fiquei triste, mas não tinha outra opção – era o único poço.” Agora, ela pode tirar água limpa de uma torneira conectada a um tanque de 450 litros, que é enchido todo dia por uma bomba elétrica ligada a 10 painéis solares que geram 1.800 watts. “Quando instalaram o sistema e ligaram, enchi todos meus potes e baldes, e gritei para todas as outras mulheres virem pegar água. Fiquei tão feliz! Eu nunca tinha enchido todos os meus potes antes.” O novo poço foi instalado pela Estação Agrícola Presbiteriana em colaboração com a Oxfam, como parte do projeto-piloto de energia solar.

Children study by the light of a solar-powered lamp at the home of Mbil Ayaaba, chief of Kpatua village in Ghana’s upper east region.

Gocker Kwesi Musah, professor da escola primária de Kpatua, diz que a energia solar trouxe grandes melhorias. Duas grandes baterias ajudam a escola armazenar energia para iluminar as salas de aula durante a noite.

“Temos agora eletricidade para ligar computadores e estamos ensinando estudantes a como usar o equipalmento. Quando damos deveres de casa, eles podem fazer suas tarefas à noite sem ter que pedir aos pais que segurem uma lanterna. O aprendizado segue durante a noite porque os alunos agora têm eletricidade em suas casas.”

Latana Ganda, enfermeira de 26 anos da posto de saúde do vilarejo, diz que tinha que andar cerca de 10 quilômetros até Garu, uma cidade próxima com eletricidade, para pegar vacinas e pacotes com gelo, e levar de volta tudo que não foi usado no final do dia.

“Agora, com a geladeira solar”, diz ela, “não precisamos ir todos os dias, e usamos bem menos combustível.” Fica mais fácil vacinar as crianças, mantendo-as saudáveis. As baterias solares do posto de saúde ajudam a enfermeira atender melhor as emergências à noite, além de manter a geladeira ligada.

Na próxima fase de testes, o plano é bombear água do ‘poço solar’ para o campo durante a temporada de seca, para que os moradores possam plantar alimentos. Nessa época de seca, os moradores costumavam migrar para partes diferentes do país em busca de trabalho.

Mas alguns moradores locais não estão esperando para testar a ideia. Felicia Ayaawin e seu marido plataram alguns pés de tomate no verão com a água que conseguiram no poço. Felicia vê o potencial da iniciativa para sua família e para o vilarejo inteiro, de plantar e colher mais com a água bombeada pela eletricidade do sol.

Resíduos sólidos de campos de refugiados garantem energia, renda e segurança para mulheres

Por Parvin Ngala

Em qualquer área densamente habitada, ter um bom sistema de saneamento básico é desafiador. Ainda mais quando se está falando de um campo de refugiados, onde equipamentos essenciais são frequentemente inadequados. Em 2016, quando milhares de famílias do Sudão do Sul fugiram para campos de refugiados no norte de Uganda, devido à guerra e à fome, se iniciou uma corrida contra o tempo para montar sistemas e estruturas que pudessem prevenir o surto de doenças e epidemias.

“No meio do imenso fluxo de pessoas chegando ao local, garantir provisões de água potável era um grande desafio, e não havia os equipamentos necessários no assentamento. A Oxfam, com parceiros locais, começou a oferecer água por meio de carros-pipa enquanto procurava assegurar financiamento de diferentes doadores. Água era muito limitada e as práticas de higiene, desafiadoras. Os equipamentos de saneamento disponíveis eram temporários, com privacidade limitada – uma latrina servia a aproximadamente 50 pessoas”, lembra Carolyne Amollo, engenheira de saúde pública da Oxfam em Uganda.

Dois anos depois, há uma mudança no tipo de risco que as pessoas dos assentamentos em Uganda enfrentam. Houve um grande aumento dos resíduos sólidos, que incluem dejetos humanos, conforme mais e mais vasos sanitários são construídos para a população dos campos. Há também o problema da degradação ambiental, já que muitas árvores são cortadas para se obter lenha – e isso também gera um problema de segurança para as mulheres e crianças, que têm que ir cada vez mais longe para buscar essa madeira.

São essas as questões principais com as quais a Oxfam está trabalhando em Uganda. E com financiamento da União Europeia, elaborou projeto de produção de briquetes a partir de resíduos sólidos.

Briquetes são pequenos blocos densos e compactos, geralmente feitos a partir de madeira, mas também podem ser feitos de serragem, casca de arroz, palha de milho, bagaço de cana, casca de algodão, entre outros materiais. São conhecidos como ‘lenha ecológica’ e podem substituir com eficiência outras fontes de combustível como gás, eletricidade, carvão vegetal e mineral, lenha e outros.

Um dos parcerios locais da Oxfam nesse projeto é o grupo de mulheres Loketa no campo de Rhino, em Uganda, que começou como uma iniciativa de geração de renda. A Oxfam está treinando cerca de 40 mulheres do grupo para produzirem briquetes a partir de resíduos sólidos. Com isso reduz-se o número de árvores cortadas e se consegue um bom destino para os resíduos sólidos produzidos no campo de refugiados. Além disso, mulheres e crianças já não precisariam mais andar longas distâncias em áreas de risco de violência e estupro, para buscar combustível para cozinhar.

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Os briquetes produzidos nos campos de Uganda são feitos com resíduos das plantações locais, serragem e outros materiais. A próxima fase do projeto envolverá o uso de dejetos humanos armazenados em fossas e equipamentos sanitários que separam fezes e urina. Cinzas são jogadas sobre a matéria fecal para facilitar sua secagem e destruir quaisquer patógenos que possam provocar doenças. Depois da coleta do material nos sanitários, os resíduos são colocados em um molde. Uma série de procedimentos são realizados em seguida para deixar o material seguro para ser usado como bio-energia – ou, nesse caso, briquetes.

A Oxfam vem trabalhando com organizações como Sanergy Sanivation, que usam o mesmo conceito de saneamento conteinerizado em assentamentos informais, onde o espaço é limitado e os serviços de coleta de dejetos fecais são inadequados. As comunidades agora produzem briquetes a partir de resíduos sólidos não apenas para o uso doméstico mas também para serem vendidos em mercados locais e internacionais, propiciando uma renda sustentável.

Em campos de refugiados, a produção de briquetes oferece não só uma boa oportunidade de geração de renda, mas também produz uma fonte de energia segura e eficiente em termos de custo e contribui para um ambiente mais saudável, reduzindo o risco de epidemias de doenças como a cólera, devido às más condições de saneamento.

“Nosso plano é usar esses briquetes em nossas próprias casas e vendê-los para outras residências para obter uma renda para ajudar nossas famílias”, afirma Tabu Regina, líder do grupo de mulheres Loketa.