Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

Oxfam inaugura o maior sistema de esgoto em um campo de refugiados

A Oxfam inaugurou em janeiro deste ano a maior usina de tratamento de resíduos sólidos já construída em um campo de refugiados. A planta de Cox’s Bazaar, em Bangladesh, foi financiada pela Agência da ONU para Refugiados, a UNHCR, e pode processar os resíduos produzidos por mais de 150 mil pessoas.

A possibilidade de tratar grandes volumes de resíduos no próprio campo, em vez de transportar para outras usinas distantes, é um grande avanço para o saneamento e gerenciamento de afluentes em emergências.

Em 2018, mais de 200 mil casos de diarreia aguda foram diagnosticados nos campos dos refugiados rohingya em Bangladesh, além de infecções respiratórias e doenças de pele, como sarna – todas relacionadas às más condições locais de saúde e higiene .

Ao longo de sete meses, engenheiros da Oxfam e refugiados rohingya construíram um grande sistema desenvolvido especialmente para o terreno montanhoso da região, e também que levasse em consideração baixos custos de manutenção e operação.

O governo de Bangladesh forneceu um local apropriado para a construção, que foi efetuada em parceria com o Escritório de Ajuda a Refugiados e Repatriação em Cox’s Bazaar.

Para Salahuddin Ahmmed, engenheiro de águas e saneamento da Oxfam, ter saneamento seguro é vital para a prevenção de doenças. “Essa usina ecológica irá ajudar a manter os refugiados saudáveis, por meio do tratamento de 40 metros cúbicos de efluentes por dia. É uma grande quantidade. O investimento inicial vale à pena, pois a usina custa pouco e pode funcionar por mais de 20 anos, beneficiando a comunidade local até mesmo após o fim do campo de refugiados. Esperamos replicar esse modelo em outras emergências.”

Em situações de emergência, o método mais comum de lidar com esse tipo de resíduos é usar caminhões-tanque para sugar o esgoto das latrinas e fossas sépticas, e levar todo o lixo para longe. Entretanto, mais de 85% dos refugiados em todo o mundo estão em países em desenvolvimento, onde falta infraestrutura adequada. Tratar os resíduos no próprio campo reduz o risco de poluir terrenos e rios.

A nova usina ecológica utiliza lagos e brejos para o tratamento dos dejetos, e é completamente segura para a população e para o meio-ambiente. Possui múltiplos estágios de tratamento para prevenir a contaminação, além de revestimento de polietileno de alta densidade e unidades anaeróbicas para prevenir o mau cheiro de escapar.

A usina também produz gás natural. A Oxfam estuda maneiras de fornecer o gás para as famílias utilizarem na cozinha.

“Eu não sabia o que acontecia com todo o lixo das fossas. Estou feliz que a Oxfam construiu essa usina, já que ela vai prevenir que as doenças se espalhem. No último ano, muitas pessoas ficaram doentes por conta da diarreia. Mas agora a situação está melhorando. Nós podemos contar à nossa comunidade que essa usina vai fazer algo para melhorar nosso futuro e, quem sabe, produzir gás de cozinha. É incrível!”, diz Aki.

Perto de um milhão de refugiados rohingya em Bangladesh ainda precisam de água, comida, moradia e de outros ítens essenciais para sobreviver. A Oxfam solicita mais ajuda a mais recursos para melhorar a condição dos refugiados e mantê-los seguros.

A Oxfam fornece ajuda vital aos refugiados rohingya em Bangladesh, como água limpa e vales-refeição. Até agora, já alcançou mais de 266 mil pessoas.

 

Negligência deixa grávidas, crianças e vítimas de tortura abandonadas em ilha grega

Falhas graves na triagem de refugiados que chegam à ilha grega de Lesbos estão deixando milhares de pessoas à deriva na região, agravando a situação de vulnerabilidade em que se encontram. Crianças, mulheres grávidas, pessoas com deficiência e vítimas de tortura estão vivendo em condições precárias em grandes acampamentos, e não conseguem atendimento adequado em seus pedidos de asilo.

Segundo as leis da Grécia e da União Europeia, pessoas em situação de vulnerabilidade devem ter acesso aos procedimentos padrões para pedido de asilo no país, além de acesso à acomodação e atenção médica apropriadas na parte continental da Grécia. Em vez disso, estão passando por processos relâmpagos e sendo mandados de volta à Turquia. Além disso, a estrutura existente para o atendimento é praticamente inexistente: ao longo de 2018, a ilha de Lesbos contava com apenas um médico indicado pelo governo, para atender mais de 2 mil refugiados por mês. Em novembro, a região ficou sem médico, paralisando a triagem.

Renata Rendón, chefe da missão da Oxfam na Grécia, diz que não reconhecer nem responder às necessidades das pessoas mais vulneráveis é imprudente e irresponsável. “Nossos parceiros identificaram mulheres vivendo em barracas com bebês recém-nascidos, ou adolescentes detidos após serem identificados por engano como adultos. Identificar e ajudar essas pessoas é uma tarefa básica do governo grego e de seus parceiros europeus.”

A Oxfam pede ao governo grego e aos estados-membro da União Europeia que disponibilizem mais médicos e psicólogos aos refugiados, e também que melhorem o sistema de triagem nas ilhas gregas. Segundo a organização, mais pessoas que buscam asilo deveriam ser transferidas para a região continental da Grécia – incluindo as pessoas mais vulneráveis. A Oxfam solicita que os demais países da União Europeia compartilhem da responsabilidade de receber refugiados de maneira mais justa, reformando a Regulação de Dublin de acordo com a posição do Parlamento Europeu.

O detalhamento dessa crise humanitária na Grécia e as soluções proposta foram reunidas no documento Vulneráveis e Abandonados (PDF, em inglês).

 

Resíduos sólidos de campos de refugiados garantem energia, renda e segurança para mulheres

Por Parvin Ngala

Em qualquer área densamente habitada, ter um bom sistema de saneamento básico é desafiador. Ainda mais quando se está falando de um campo de refugiados, onde equipamentos essenciais são frequentemente inadequados. Em 2016, quando milhares de famílias do Sudão do Sul fugiram para campos de refugiados no norte de Uganda, devido à guerra e à fome, se iniciou uma corrida contra o tempo para montar sistemas e estruturas que pudessem prevenir o surto de doenças e epidemias.

“No meio do imenso fluxo de pessoas chegando ao local, garantir provisões de água potável era um grande desafio, e não havia os equipamentos necessários no assentamento. A Oxfam, com parceiros locais, começou a oferecer água por meio de carros-pipa enquanto procurava assegurar financiamento de diferentes doadores. Água era muito limitada e as práticas de higiene, desafiadoras. Os equipamentos de saneamento disponíveis eram temporários, com privacidade limitada – uma latrina servia a aproximadamente 50 pessoas”, lembra Carolyne Amollo, engenheira de saúde pública da Oxfam em Uganda.

Dois anos depois, há uma mudança no tipo de risco que as pessoas dos assentamentos em Uganda enfrentam. Houve um grande aumento dos resíduos sólidos, que incluem dejetos humanos, conforme mais e mais vasos sanitários são construídos para a população dos campos. Há também o problema da degradação ambiental, já que muitas árvores são cortadas para se obter lenha – e isso também gera um problema de segurança para as mulheres e crianças, que têm que ir cada vez mais longe para buscar essa madeira.

São essas as questões principais com as quais a Oxfam está trabalhando em Uganda. E com financiamento da União Europeia, elaborou projeto de produção de briquetes a partir de resíduos sólidos.

Briquetes são pequenos blocos densos e compactos, geralmente feitos a partir de madeira, mas também podem ser feitos de serragem, casca de arroz, palha de milho, bagaço de cana, casca de algodão, entre outros materiais. São conhecidos como ‘lenha ecológica’ e podem substituir com eficiência outras fontes de combustível como gás, eletricidade, carvão vegetal e mineral, lenha e outros.

Um dos parcerios locais da Oxfam nesse projeto é o grupo de mulheres Loketa no campo de Rhino, em Uganda, que começou como uma iniciativa de geração de renda. A Oxfam está treinando cerca de 40 mulheres do grupo para produzirem briquetes a partir de resíduos sólidos. Com isso reduz-se o número de árvores cortadas e se consegue um bom destino para os resíduos sólidos produzidos no campo de refugiados. Além disso, mulheres e crianças já não precisariam mais andar longas distâncias em áreas de risco de violência e estupro, para buscar combustível para cozinhar.

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Os briquetes produzidos nos campos de Uganda são feitos com resíduos das plantações locais, serragem e outros materiais. A próxima fase do projeto envolverá o uso de dejetos humanos armazenados em fossas e equipamentos sanitários que separam fezes e urina. Cinzas são jogadas sobre a matéria fecal para facilitar sua secagem e destruir quaisquer patógenos que possam provocar doenças. Depois da coleta do material nos sanitários, os resíduos são colocados em um molde. Uma série de procedimentos são realizados em seguida para deixar o material seguro para ser usado como bio-energia – ou, nesse caso, briquetes.

A Oxfam vem trabalhando com organizações como Sanergy Sanivation, que usam o mesmo conceito de saneamento conteinerizado em assentamentos informais, onde o espaço é limitado e os serviços de coleta de dejetos fecais são inadequados. As comunidades agora produzem briquetes a partir de resíduos sólidos não apenas para o uso doméstico mas também para serem vendidos em mercados locais e internacionais, propiciando uma renda sustentável.

Em campos de refugiados, a produção de briquetes oferece não só uma boa oportunidade de geração de renda, mas também produz uma fonte de energia segura e eficiente em termos de custo e contribui para um ambiente mais saudável, reduzindo o risco de epidemias de doenças como a cólera, devido às más condições de saneamento.

“Nosso plano é usar esses briquetes em nossas próprias casas e vendê-los para outras residências para obter uma renda para ajudar nossas famílias”, afirma Tabu Regina, líder do grupo de mulheres Loketa.