Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

Jovens da América Latina ainda consideram ‘normal’ a violência machista

A violência machista contra as mulheres da América Latina e Caribe está muito presente na vida dos jovens da região, a ponto de considerarem ‘normais’ situações como controlar a forma como as mulheres se vestem ou censurar suas fotos nas redes sociais. É o que revela o relatório Rompendo Padrões: Transformar imaginários e normas sociais para eliminar a violência contra as mulheres (resumo executivo em espanhol), publicado nesta quarta-feira (25/7) pela Oxfam após pesquisa com jovens de 15 a 25 anos de oito países – Bolívia, El Salvador, Colômbia, Cuba, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana.

O estudo mostra que a ideia do ‘amor romântico’ nocivo é a base de crenças que levam jovens a reproduzir desigualdades e justificar ou normalizar situações de violência machista. A partir da análise dos imaginários e normas sociais que reproduzem as violências machistas, o relatório indica novos caminhos para a igualdade de gênero e um mundo livre de violência.

– Seis entre cada 10 homens de 15 a 19 anos entrevistados pela Oxfam acredita que o ciúme é uma demonstração de amor.

– 65% dos homens entre 15 e 19 anos pensam que quando uma mulher diz ‘não’ para uma relação sexual, na realidade ela quer dizer ‘sim’.

– Sete entre 10 penam que a responsabilidade pelo assédio ou agressão sexual é das mulheres, devido à roupa que elas usam.

– 40% dos jovens homens pesquisados afirmaram que se uma mulher consumiu álcool, dá condições para um homem ter relações sexuais com ela, ainda que esteja inconsciente.

– 56% das mulheres e 48% dos homens entre 20 e 25 anos têm algum conhecido próximo que sofreu violência física ou sexual no último ano.

– 7 entre 10 jovens consideram a violência machista como um problema grave em seu país.

BAIXE AQUI O RELATÓRIO “ROMPENDO PADRÕES” – arquivo PDF, texto em espanhol.

Em quase todos os países da América Latina e Caribe houve avanços legislativos contra a violência e o feminicídio nos últimos anos, mas não o suficiente. A impunidade se alimenta da tendência a considerar ‘normal’ os atos de violência contra mulheres e meninas. A presença do machismo na música, literatura, filmes, relações familiares, amizades e casais, como algo que pode tolerar e, inclusive, que muitas vezes se celebra, tem consequências concretas e graves: 86% das mulheres e homens entre 20 e 25 anos entrevistados pela Oxfam acreditam que suas amizades não interviriam se um amigo agarra-se sua namorada.

“Os dados do relatório ‘Rompendo Padrões’ demonstram que o machismo é aceito e tolerado por muitos jovens da região, onde estão 14 dos 25 países do mundo com maior número de feminicídios. Isso indica a necessidade de atuação urgente. A normalização do machismo cotidiano muitas vezes termina com as piores consequências.

Prova disso são as 1.831 mulheres assassinadas em 2016 sem motivo outro que seu gênero, de acordo com dados da Cepal. Sabemos que isso pode e está mudando, e devemos apoiar os jovens nessa transformação para que vivam livres da violência de gênero”, afirma Damaris Ruiz, coordenadora de direitos das mulheres da Oxfam na América Latina e Caribe.

Relatório da Oxfam Brasil inspira tema da próxima Bienal do Mercosul

Sempre que lançamentos um estudo ou pesquisa, ficamos na expectativa de saber como ele contribuirá para o debate público sobre as desigualdades no Brasil. Desde o lançamento de nosso primeiro relatório, A Distância Que nos Une, temos participado de inúmeras conferências, debates e seminários sobre o tema usando os dados compilados no documento, dando assim o justo e necessário destaque a uma das principais mazelas do país. Com isso esperamos não só ajudar a consolidar o debate público sobre o assunto mas também inspirar novas ações e iniciativas que possam levar a discussão adiante.

Iniciativas como a escolha do novo tema da próxima Bienal do Mercosul. Prevista para ocorrer no primeiro semestre de 2020, a Bienal terá a mulher como tema central. A inspiração veio, segundo Gilberto Schwartsmann, presidente da Fundação Bienal, do relatório da Oxfam Brasil lançado em setembro de 2017, que trouxe dados sobre as desigualdades de oportunidades para mulheres e negros no Brasil, em comparação a homens brancos.

O relatório aponta, por exemplo, que apesar de terem escolaridade média superior à dos homens (8,4 anos de estudo contra 8, respectivamente), há uma enorme diferença salarial em favor dos homens. As mulheres com ensino médio completo ganham, em média, R$ 1.338 – 66% do que ganham os homens de mesma escolaridade (R$ 2.023). Na faixa de ensino superior completo, as mulheres ganham menos ainda – 63% do que ganham os homens como mesmo nível educacional (R$ 3.022 x R$ 4.812).

“Não só há discriminação negativa contra negros e mulheres dentro das mesmas faixas educacionais, mas também com as mesmas profissões. Negros e mulheres estão concentrados em carreiras com menor remuneração, e tendem a ganhar menos que brancos e homens mesmo nestas carreiras.”

BAIXE AQUI O RELATÓRIO

Ei, G7! Está mais do que na hora de fazer a economia funcionar para as mulheres!

A economia global está gerando extrema riqueza para alguns poucos às custas – e nas costas – de mulheres pobres, que costuram nossas roupas, colhem nossa comida e cuidam de nossos filhos. “Isso tem que acabar”, afirma Winnie Byanyima, diretora executiva da Oxfam  Internacional que está em Quebec, no Canadá, para acompanhar a reunião do grupo dos sete países mais ricos do mundo, o G7. “Recomendo fortemente aos líderes do G7 a apoiar políticas feministas que comprovadamente reduzem as desigualdades econômica e de gênero. Estamos acostumados a ver os líderes falarem muito sobre empoderamento feminino; nós agora precisamos de ação efetiva do G7.”

Algumas medidas que o G7 pode tomar para reduzir as desigualdades econômicas e de gênero no mundo:

– fazer com que os mais ricos e as grandes corporações paguem uma fatia justa de impostos, e usar esses recursos para financiar serviços públicos como escolas e saúde. Isso ajuda imensamente às mulheres, fazendo com que elas possam ter mais oportunidades de trabalho, e ajuda também na redução da diferença entre homens e mulheres, criando sociedades mais igualitárias.

– reconhecer, reduzir e redistribuir o trabalho doméstico e de cuidados: investir em creches e casas de repouso para os mais velhos é uma das políticas que podem ajudar a reduzir o tempo gasto pelas mulheres em atividades não remuneradas, principalmente nos países em desenvolvimento. Isso dá às mulheres mais tempo e recursos para que possam procurar trabalho pago e oportunidades educacionais.

– introduzir orçamento de gênero em todos os níveis: mais cedo este ano, o Canadá aprovou seu primeiro orçamento focado em mulheres. Os demais países do G7 têm a oportunidade de aprender com esse processo e fazer uma análise de gênero e coleta de dados mandatória ao longo de suas políticas fiscais.

– tornar o apoio e a cooperação mais feminista: os países do G7 devem cumprir seu compromisso de gastar 0,7% de seus respectivos PIBs na cooperação internacional, e desenvolver – como o Canadá fez este ano – suas próprias políticas feministas de ajuda. Um componente-chave é incluir apoio para grupo de direitos das mulheres em países em desenvolvimento, que estão melhor posicionados a desafiar as normas tóxicas de gênero e promover igualdade de gênero.

– assegurar representação equilibrada nas negociações sobre mudanças climáticas: as mulheres pobres estão desproporcionalmente mais em risco devido às mudançcas climáticas, e muitas afirmam à Oxfam que são excluídas das discussões sobre para onde devem ir os recursos para enfrentar o problema. O G7 têm trabalhar para incluir as mulheres mais pobres nas negociações oficiais e discussões sobre finanças climáticas.

“O trabalho das mulheres está alimentando o crescimento econômico global, mas a maior parte da riqueza gerada está sendo capturada por uma pequena elite masculina”, afirma Byanyima. “Estamos propondo estratégias eficientes que podem desfazer essa injustiça e dar às mulheres mais pobres mais oportunidades para que tenham uma vida melhor. Eu desafio o G7 a mostrar liderança política e ser ambicioso em seus esforços para empoderar as mulheres.”

“As desigualdades foram criadas pela sociedade, e por nós devem ser resolvidas”

Os desafios são muitos no Brasil e em toda América Latina quando o assunto é desigualdade. Mas também são muitas as oportunidades para resolver o problema, que afeta milhões de pessoas na região. “Quando falamos sobre desigualdades, é sempre importante observar que elas foram criadas pela sociedade. Não é algo que simplesmente caiu do céu. Então, se nós criamos, nós podemos resolver”, afirmou Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, durante entrevista concedida nesta quinta-feira (3/5) em Roma, Itália, onde participa da Conferência Internacional sobre Desigualdades Rurais, organizada pelo Escritorio de Avaliação Independente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agricola (Fida).

Veja aqui o vídeo com a entrevista de Katia Maia durante a Conferência em Roma.

Katia falou sobre os muitos aspectos das desigualdades no Brasil e na América Latina, e como atinge muitos setores – de recursos naturais e distribuição de terras à questão de raça e gênero. “Somos umas das regiões mais desiguais do mundo.”

Leia abaixo a entrevista completa com Katia Maia:

Sabemos que a Oxfam Brasil tem muito trabalho sobre desigualdades. Gostaríamos de saber, do seu ponto de vista, quais são os principais desafios que a América Latina e o Brasil têm pela frente em termos de desigualdade.

A desigualdade é um grande tema para a região. Apesar de termos tido algum progresso nas últimas duas décadas, ainda somos uma das mais desiguais regiões do mundo. Não apenas o Brasil, mas muitos outros países na América Latina. E a desigualdade na região vai dos recursos naturais – quem tem acesso, quem detém o recurso – ao poder econômico, político… Então, quando você olha para essas diferentes questões na América Latina, você percebe o quão desigual é a região. Principalmente quando pensamos em questões de gênero, povos indígenas e populações negras.

Você pode nos falar sobre qual é a relação entre sustentabilidade e desigualdade?

Esse é um ponto muito importante porque sustentabilidade tem forte ligação com o uso que fazemos e como operamos no meio ambiente, e a importância de ser preservar os recursos naturais para a nossa geração e as futuras. Quando você olha para as desigualdades, uma questão central é como esses recursos são distribuídos. Mas quando você pensa no impacto das mudanças climáticas, você percebe que as pessoas que sofrem mais ou as que têm menos capacidade para se recuperar de algum desastre natural, por exemplo, são as mais vulneráveis. Portanto, quando se fala em sustentabilidade, tem que se falar também em desigualdade. Como enfrentá-la, a desigualdade social e a econômica. Porque a pressão sobre os recursos naturais também vem das necessidades sociais e econômicas das pessoas. Por outro lado, também temos que nos preocupar com o meio ambiente. Então, acredito não ser possível falar sobre desenvolvimento sustentável sem o enfrentamento às desigualdades.

Nesse sentido, quais políticas temos que ter?

Primeiro, temos que resolver a questão básica da desigualdade de terras, como distribuímos a terra, como a usamos, como a exploramos. Se olharmos pela perspectiva ambiental, podemos ver que temos um problema crescente de desmatamento. Temos muitos desafios nesse setor. A política de redistribuição é importante para o Brasil mas também para os demais países da região.

A outra questão é sobre renda e riqueza. Realmente temos que ter justiça fiscal em nosso país e na região. É tão absurdo ver que as pessoas que estão no topo da pirâmide, as mais ricas, que recebem mais dinheiro, são as que menos pagam impostos. E as pessoas mais pobres são as que mais pagam.

E também temos a questão de gênero. Não podemos caminhar para um mundo mais justo sem enfrentar a desigualdade de gênero. Os direitos básicos das mulheres têm que ser respeitados. Não precisamos criar nada ‘mágico’ para isso, há coisas simples, políticas, para mudar essa realidade (de desigualdade de gênero).

Então temos muitos desafios…

Sim, muitos desafios, mas também muitas oportunidades… Quando falamos sobre desigualdades, tem uma coisa importante a dizer: desigualdades são criadas por nós mesmos. As desigualdades foram criadas pela sociedade. Não é algo que caiu do céu e oh! temos desigualdade. Então, se criamos, podemos resolver.

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