Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

Debate Frutas Doces, Vidas AmargasO que há por trás das frutas: riqueza concentrada e perda de direitos

“O que há por trás das frutas que comemos?”. Essa foi a questão central do debate realizado no Dia Mundial da Alimentação (16/10), na livraria Tapera Taperá, em São Paulo, que reuniu pesquisadores, trabalhadores rurais e integrantes da Oxfam Brasil – organizadora do evento.

Antes do debate, foi exibido ao público o filme Frutas Doces, Vidas Amargas que mostra a dura realidade dos trabalhadores e trabalhadoras de cadeias de frutas no Nordeste. O filme é parte da campanha que a Oxfam Brasil lançou no último dia 10 de outubro juntamente com um relatório que traz os dados dos principais problemas enfrentados no campo.

Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, abriu o evento falando sobre a importância de se fazer esse diálogo no Dia Mundial da Alimentação: “O mundo produz alimentos suficientes para todas as pessoas, mas ainda tem 800 milhões de pessoas passando fome. Isso não é só pelo acesso, mas também pela forma como a cadeia alimentar é concentrada nas mãos de poucos”.

Quando se trata do contexto brasileiro, essa assimetria de poder é ainda mais forte. Em um contexto de crise econômica e desemprego, em que os direitos trabalhistas são ameaçados, é importante lembrar que quando se trata do trabalho rural, em muitos casos, esses direitos sequer são alcançados. Gustavo Ferroni, coordenador de Setor Privado e Direitos Humanos da Oxfam Brasil, comentou “Os direitos trabalhistas chegaram com 30 anos de atraso no campo”. A CLT foi criada em 1943, mas a lei que regulariza o trabalho rural chegou apenas em 1973.

Responsabilidade dos grandes supermercados brasileiros

Gustavo apresentou a campanha da Oxfam Brasil para pressionar os 3 maiores supermercados brasileiros, Pão de Açúcar, Walmart e Carrefour, para que exijam dos grandes produtores condições dignas aos trabalhadores. Responsáveis por 43% da compra de frutas no Brasil, esses supermercados têm poder para exigir melhorias.

Jocelino Dantas, da FETARN, falou sobre a situação dos trabalhadores rurais do Rio Grande do Norte, em especial sobre os safristas, que vivem submetidos a péssimas condições de trabalho, sem acesso até a banheiros em alguns casos, e expostos a contaminação pelo uso de agrotóxicos. “Existe esse discurso de que a agricultura é o setor que mais gera empregos no país, mas será que nós estamos preparados para saber que tipo de emprego é esse?” questionou.

Queremos frutas com sabor de dignidade! Assine a petição!

Os baixos salários decorrentes desses contratos temporários também são uma grave questão no campo, como destacou Patricia Pelatieri do DIEESE. Apesar de receberem remuneração um pouco maior que um salário mínimo, o valor é diluído nos meses sem contrato e as famílias não conseguem se manter. “Em um setor tão rico como a agricultura essa riqueza precisa ser melhor distribuída”, pontuou. Patricia ainda reformou o papel de organizações como a Oxfam Brasil no apoio a esses trabalhadores “Os trabalhadores em condições tão desiguais, dificilmente conseguiriam sozinhos, por mais que se organizem, superar essa violência enorme que é a exploração do trabalho rural.”

A importância dos sindicatos rurais

José Manuel dos Santos, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (STTR) de Juazeiro destacou a importância dos sindicatos nas negociações com as grandes empresas produtoras para garantia dos direitos. “Após a reforma trabalhista pioraram as condições de trabalho no campo com o desmonte dos órgãos fiscalizadores” concluiu. Marcel Gomes da ONG Repórter Brasil finalizou falando sobre a responsabilidade das empresas da ponta nas cadeias produtivas. “Quando você reconhece os problemas, monitora e identifica as empresas, você coloca pressão pública sobre as empresas e ajuda a melhorar”.

Em discurso na ONU, Bolsonaro acusa ‘fantasmas’ pela destruição da Amazônia

A Oxfam Brasil recebe com apreensão o discurso do presidente brasileiro Jair Bolsonaro na abertura do debate geral da 74ª Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Em vez de admitir erros e indicar soluções para a caótica situação ambiental no Brasil, Bolsonaro preferiu fazer acusações contra povos indígenas, mídia internacional, ONGs e outros países.

A floresta amazônica não está queimando devido a “práticas culturais da população indígena e local”, como ele disse hoje em seu discurso. Está queimando porque ele, o presidente do Brasil, deu vários sinais de que os grandes agricultores da região podem fazê-lo. E se o seu governo está tão comprometido com a proteção ambiental, por que ele está cortando fundos públicos para as agências que trabalham em campo fazendo exatamente isso?

Bolsonaro disse também que um “novo capítulo de esperança” é necessário para os povos indígenas, e a Oxfam Brasil concorda. Mas eles primeiro precisam ser protegidos daqueles que os querem fora de suas terras e que os matam há gerações para que possam expandir suas terras agrícolas.

E esse capítulo deve ser escrito pelos próprios povos indígenas.

Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.

Redução das desigualdades é tema do Prêmio Cidades Sustentáveis 2019

A maior parte da população brasileira vive hoje nas cidades e nelas as desigualdades ficam mais evidentes à sociedade. O que os municípios brasileiros têm feito para enfrentar o problema? Quais as boas práticas e políticas públicas inovadoras e bem sucedidas têm sido apresentadas pelas cidades? Esse é o tema da edição 2019 do Prêmio Cidades Sustentáveis, que está com inscrições abertas até junho para levantar as melhores iniciativas de redução das desigualdades.

O prêmio está dividido em três categorias: desigualdade econômica (foco em gênero e raça), acesso a serviços (saúde, educação e infraestrutura) e acessibilidade.

“Esse é um prêmio muito importante porque estimula as cidades a adotarem práticas que contribuam para a redução das desigualdades no país. Os grandes centros urbanos têm que ser protagonistas nesse esforço coletivo já que uma grande parte da população brasileira vive nas cidades.

Nós da Oxfam Brasil estamos muito orgulhosos de participar dessa premiação, que é uma iniciativa da sociedade civil para alimentar o urgente e necessário debate sobre desigualdades, e buscar soluções para esse grande desafio nacional”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.

A desigualdade é um problema que não está limitado à distribuição de renda, ela está presente no acesso a serviços básicos de saúde e educação, na oferta de equipamentos e em muitas outras áreas como transporte, segurança, habitação e acessibilidade. Elas impactam, sobretudo, a vida da população negra, das mulheres e de outros grupos sociais mais vulneráveis. Por isso, a importância do enfrentamento à desigualdade na esfera pública e a necessidade de políticas que priorizem os investimentos nos locais que mais precisam de recursos.

Segundo pesquisa realizada pela Oxfam Brasil em parceria com o Instituto Datafolha, 8 em cada 10 brasileiros acreditam que o Brasil só vai progredir se reduzir desigualdades entre pobres e ricos. Além disso, a maioria dos entrevistados (84%) afirmam que é obrigação dos governos diminuir a diferença entre muito ricos e muito pobres, e 77% concordam com o aumento dos impostos de pessoas muito ricas para financiar políticas sociais.

Clique aqui para baixar a pesquisa.

https://www.youtube.com/watch?v=b7ptrF7hQNk

O prêmio é realizado pelo Programa Cidades Sustentáveis e pela Oxfam Brasil, com apoio do CITinova e Fundação Ford, e tem como parceiros a Associação Brasileira de Municípios e Frente Nacional de Prefeitos.

Podem se inscrever os municípios signatários do Programa Cidades Sustentáveis e a cerimônia de premiação ocorrerá em setembro, durante a segunda edição da Conferência Internacional Cidades Sustentáveis.

Estímulo a gestores

A primeira edição do Programa Cidades Sustentáveis foi realizada em 2014 e teve como objetivo estimular gestores e gestoras públicos para a criação, manutenção e atualização de observatórios em seus respectivos municípios. Estes observatórios contavam com indicadores, programas de metas e informações relevantes sobre políticas públicas voltadas à qualidade de vida e ao desenvolvimento sustentável para, assim, reconhecer e valorizar experiências bem-sucedidas.

Já a segunda edição, em 2016, foi voltada para boas práticas de políticas pública municipais com os seguintes enfoques: Bens Naturais Comuns; Criança; Cultura; Educação para a Sustentabilidade; Esporte; Governança; Mobilidade; e Saúde.

 

 

“A questão racial e de discriminação das mulheres precisam ser tratadas como prioridades”

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), conjunto de 17 metas globais estabelecidas pela ONU a serem cumpridas até 2030, precisam ser apropriados pela sociedade brasileira e dar prioridade às questões relacionadas ao racismo e discriminação das mulheres para que haja avanços no Brasil em relação ao enfrentamento das desigualdades, afirmou Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, durante o seminário de lançamento do projeto de fortalecimento daRede Estratégia ODS, realizado segunda-feira (29/4) em São Paulo.
 
“Para além das das questões econômicas, a questão racial e de discriminação das mulheres precisam ser tratadas como prioridades em nosso país, isso é fundamental”, afirmou Katia, que participou da mesa “As Desigualdades de Gênero, Raça e Geracional” do seminário, que teve como tema geral as “Parcerias Multissetoriais para os ODS: o Desafio da Redução das Desigualdades”.

Katia apresentou alguns dos principais resultados da pesquisa da Oxfam Brasil feita em parceria com o Instituto Datafolha sobre as percepções dos brasileiros em relação às desigualdades no país – clique aqui para acessar a pesquisa.

“Tem algumas interessantes na pesquisa, como por exemplo o fato de que 86% da população concorda que é necessário reduzir as desigualdades econômicas entre pobres e ricos para o progresso do país”, disse Katia. “Essa pesquisa trás para nós desafios e oportunidades para o nosso trabalho de enfrentamento das desigualdades e, especialmente, na construção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da apropriação dos ODS pelo conjunto da sociedade brasileira.”

Essa apropriação dos ODS, segundo Katia, passa necessariamente pela participação direta das pessoas que são mais vulneráveis. “Temos que garantir que, quando falamos de juventude, a gente traga os jovens para falar. Tem muita coisa importante e criativa acontecendo com essa juventude negra que é massacrada diariamente.”

O projeto de fortalecimento da Rede Estratégia ODS é coordenado pela Fundação Abrinq em parceria com a Agenda Pública, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP), com financiamento da União Europeia. Tem como objetivo discutir as diversas dimensões da desigualdade social a partir da perspectiva dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), bem como parcerias, experiências e soluções concretas aos desafios da redução das desigualdades.

 

Percepção sobre as desigualdades em debate

Como os brasileiros percebem as desigualdades brasileiras e suas principais consequências? Quais políticas públicas podem reduzir essas desigualdades e tirar o Brasil do vergonhoso posto de um dos 10 países mais desiguais do mundo? Qual a expectativa em relação ao papel do governo e do Estado na redução das desigualdades? Esses e outros muitos tópicos foram debatidos na última terça-feira (9/4) no teatro Tucarena, da PUC-SP, no seminário Nós e as Desigualdades, que organizamos para discutir os resultados da pesquisa de opinião que fizemos em parceria com o Instituto Datafolha,lançada no dia anterior (8/4).

Baixe aqui a pesquisa e nossa análise sobre os resultados.

https://www.youtube.com/watch?v=swhZUeiyr3Q

Cerca de 300 pessoas foram ao Tucarena ouvir os palestrantes convidados a discutir dois temas centrais: as desigualdades no imaginário brasileiro e políticas públicas para redução de desigualdades. Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, e Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo, reforçaram a importante dos temas para o debate nacional e celebraram o grande interesse do público presente.

“Nós somos um país que estabeleceu cidadãos e cidadãs de primeira e segunda categoria, isso é inaceitável numa sociedade”, disse Katia Maia, na abertura do evento. “As desigualdades precisam ser enfrentadas para que possamos ter um país mais justo, solidário e igualitário. Enquanto pessoas foram discriminadas pela sua raça, pelo seu gênero, pela sua orientação sexual ou pelo seu endereço, nós estaremos construindo um país que não é para todos e todas.”

Para Oded, não é normal que 5% da população tenha a mesma renda dos 95% restantes nem que homens e mulheres negros sejam discriminados. “As diferenças de salários, de relações ente entre homens e mulheres, negros e brancos só mudam quando deixamos de achar que isso é normal. Aí alguma coisa vai acontecer.”

Os resultados da pesquisa e sua análise primeira foram apresentados por Rafael Georges, nosso coordenador de campanhas. “Esse estudo tem uma importância central para o debate que está sendo feito no Brasil sobre a questão fiscal, as contas públicas e quanto dinheiros o Estado tem para dar em saúde, educação, assistência para quem mais precisa”, disse ele durante sua apresentação.

Alguns dos principais números da pesquisa:

* 86% creem que o progresso no Brasil está condicionado à redução de desigualdade entre pobres e ricos.

* 57% não acreditam que as desigualdades diminuirão nos próximos anos.

* 2 em cada 3 brasileiros elegem ‘fé religiosa’, ‘estudar’ e ‘ter acesso à saúde’ como as três principais prioridades para uma vida melhor.

* 64% concordam que o fato de ser mulher impacta negativamente a renda.

* 52% concordam que negros ganham menos por serem negros.

Mediado por Tauá Pires, coordenadora de programas da Oxfam Brasil, o primeiro painel do seminário contou com a participação do documentarista Henry Grazinolli, da pesquisadora Esther Solano e do professor Jailson de Souza e Silva, diretor da Universidade Internacional das Periferias. “Estamos falando de uma estrutura sistemática de reprodução de desigualdades. Nossa questão fundamental não é que as pessoas não tem consciência das desigualdades, o problema fundamental é que elas naturalizam as desigualdades e vêem nas ações individuais as alternativas para resolver esse problema”, afirmou Jailson.

Para Esther Solano, a pesquisa revelou algo importante em relação às expectativas dos brasileiros com o papel do Estado. “As pessoas querem Estado, isso ficou evidente nas respostas sobre universalização dos serviços de educação e saúde, mas nós estamos perdendo a narrativa com o público. A narrativa que está vencendo é a do Estado mínimo, da individualização e do mérito. Essa é uma preocupação grande para mim.”

Henry Grazinoli pontuou que é preciso saber ‘furar a bolha’ para alcançar um maior número de pessoas e ser efetivo na mensagem. “Contar histórias é extremamente transformador no processo da comunicação. É preciso fazer com que as pessoas sintam o problema sobre o qual estamos falando.”

O segundo painel, sobre Políticas Públicas para Redução de Desigualdades, foi mediado pela jornalista da TV Cultura Adriana Couto e contou com a participação da economista Luana Passos, da cientista política Marta Arretche e da jornalista Flávia Oliveira.

“É fundamental pensar políticas públicas sob a luz das desigualdades. Eu acho que a partir dai é que a gente vai conseguir efetivamente combater esses níveis tão absurdos de desigualdades.

Tem que carimbar o gasto orçamentário em benefício dos mais prejudicados pelo tamanho dessas distâncias, basicamente mulheres e negros, mas, sobretudo, mulheres negras.” comentou Flávia.

A cientista política Marta Arretche defendeu a importância do salário mínimo num país como o Brasil. “O que tem sustentado famílias nesses tempos de crise são as aposentadorias e pensões. Assim, o salário mínimo foi importante tanto pro crescimento quanto pra evitar aprofundamento social da crise.”

O seminário terminou com uma apresentação musical do grupo Acústica Periférica, formado por coletivos que fazem parte do projeto Juventudes nas Cidades, uma parceria da Oxfam Brasil com diversas organizações. “É muito importante discutir sobre o imaginário dos brasileiros sobre as desigualdades, sobretudo para nós, pretos e periféricos, que somos os mais massacrados. Nossa principal pauta hoje é o direito à vida.” disse a vocalista Patrícia Meira.

Confira a íntegra do evento:

https://www.youtube.com/watch?v=HEKM9HosEGc
Redução da desigualdade no Brasil é interrompida pela vez primeira em 15 anos

Pela primeira vez nos últimos 15 anos, a redução da desigualdade de renda parou no Brasil, e também pela primeira vez, em 23 anos, a renda das mulheres retrocedeu em relação aos homens. Há 7 anos, a proporção da renda média da população negra brasileira se encontra estagnada em relação aos brancos.

Além disso, em 2016, retrocedemos 17 anos em termos de espaço para gastos sociais no orçamento federal.

As informações são do novo relatório anual da Oxfam Brasil, País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras, lançado na segunda-feira (26/11) com dados sobre as desigualdades no Brasil. O foco do estudo neste ano está na distribuição de renda e na questão fiscal (tributação e gastos sociais).

Em 2017, o Brasil tinha 15 milhões de pessoas pobres – que são as que sobrevivem com uma renda de US$ 1,90 por dia (pouco mais de R$ 7, segundo critério do Banco Mundial) -, ou 7,2% da população. Houve um crescimento de 11% em relação a 2016 (13,3 milhões de pobres, 6,5% da população). Esse é o terceiro ano consecutivo que o número de pobres aumenta no Brasil, tendência iniciada em 2015.

De 2002 a 2016, o índice de Gini de rendimentos totais per capita, medido pelas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílio (PNAD-IBGE) caiu ano após ano, mas essa trajetória foi interrompida entre 2016 e 2017.

Isso contribuiu para a nova posição do Brasil no ranking de desigualdade de renda no mundo: somos agora o 9º pior da lista.

“Infelizmente, nosso relatório revela que o país estagnou em relação à redução das desigualdades. Mais que isso, podemos estar caminhando para um grande retrocesso. E, novamente, quem está pagando a conta são os mesmos de sempre: as pessoas em situação de pobreza, a população negra e as mulheres”, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil.

Para Rafael Georges, coordenador de Campanhas da Oxfam Brasil e autor do relatório País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras, o Brasil está seguindo um caminho que é exatamente o oposto do que deveria ser feito para reduzir desigualdades. “Cortamos gastos que chegam nos que mais precisam – estamos falando de gastos em Educação, Saúde, Assistência Social – e não mexemos no injusto sistema tributário que temos.”

Rafael acrescenta que, com algumas mudanças no sistema tributário, o Brasil poderia avançar de dois a cinco anos em redução de desigualdades, considerando a média de redução verificada no país desde a Constituição de 1988.

Para Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, “estamos deixando de cumprir a nossa Constituição Federal, a qual diz que devemos ter um sistema de arrecadação que seja justo”.

Clique aqui para baixar o relatório.

Arriscando vidas para salvar vidas

Há dez anos, a Assembleia Geral da ONU estabeleceu o Dia Mundial da Ajuda Humanitária, criado para homenagear trabalhadores humanitários e mobilizar o apoio da sociedade e de governos a pessoas afetadas por diferentes crises e emergências em todo o mundo.

O dia escolhido foi o 19 de agosto, data em que, no ano de 2003, um atentado terrorista em Bagdá atingiu o escritório das Nações Unidas no Iraque e deixou mais de 150 civis feridos e causou a morte de 22 membros da ONU, incluindo o reconhecido e respeitado diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello (1948-2003), então representante do secretário-geral da ONU naquele país.

A partir da institucionalização dessa data, a comunidade humanitária passou a organizar campanhas globais para defender a segurança de seus trabalhadores e trabalhadoras e a garantia de sobrevivência, bem-estar e a dignidade de milhões de pessoas afetadas.

Mais de 130 milhões de pessoas vivem hoje em situação de extrema vulnerabilidade causada por diferentes emergências em diversas partes do mundo. Desse número, um pouco mais de 95 milhões estão recebendo ajuda humanitária, o que significa 35 milhões de pessoas desassistidas.

Só no ano passado, cerca de 70 milhões de homens, mulheres e crianças tiveram que deixar suas casas —dois terços delas cruzando as fronteiras de seus países para tentar encontrar algum tipo de segurança.

Esse gigantesco contingente de seres humanos sofre não só com guerras e conflitos armados, mas também com desastres naturais, alguns deles já associados às mudanças climáticas, com crises econômicas e/ou perseguição étnica ou religiosa.

Trabalhando em parceria, organizações humanitárias internacionais e locais alcançam milhões de pessoas em todo o mundo com projetos e ações que salvam vidas e oferecem apoio e alívio em situações de grande estresse físico e psicológico. São milhares de pessoas que, muitas vezes, arriscam suas próprias vidas. Os desafios são vários e, ainda que seja reconhecida a evolução do setor humanitário, o caminho segue longo.

A Oxfam Brasil faz parte da Confederação Oxfam, organização que há mais de 70 anos tem a ajuda humanitária como um de seus pilares de atuação, seja por meio de projetos de água, saneamento e higiene e segurança alimentar, como também na proteção de pessoas em situação de conflitos.

Em um mundo onde o respeito à dignidade humana e à diversidade está deixando de ser um valor fundante da sociedade, onde as pessoas cada vez valem menos, onde privilégios e interesses dos mais diversos se sobrepõem à noção de bem comum, o trabalho de organizações de ajuda humanitária segue imprescindível, seja aliviando o sofrimento, seja salvando vidas.

Katia Maia
Socióloga e diretora-executiva da ONG Oxfam Brasil

(artigo originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, dia 20 de agosto de 2018)

“As desigualdades foram criadas pela sociedade, e por nós devem ser resolvidas”

Os desafios são muitos no Brasil e em toda América Latina quando o assunto é desigualdade. Mas também são muitas as oportunidades para resolver o problema, que afeta milhões de pessoas na região. “Quando falamos sobre desigualdades, é sempre importante observar que elas foram criadas pela sociedade. Não é algo que simplesmente caiu do céu. Então, se nós criamos, nós podemos resolver”, afirmou Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, durante entrevista concedida nesta quinta-feira (3/5) em Roma, Itália, onde participa da Conferência Internacional sobre Desigualdades Rurais, organizada pelo Escritorio de Avaliação Independente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agricola (Fida).

Veja aqui o vídeo com a entrevista de Katia Maia durante a Conferência em Roma.

Katia falou sobre os muitos aspectos das desigualdades no Brasil e na América Latina, e como atinge muitos setores – de recursos naturais e distribuição de terras à questão de raça e gênero. “Somos umas das regiões mais desiguais do mundo.”

Leia abaixo a entrevista completa com Katia Maia:

Sabemos que a Oxfam Brasil tem muito trabalho sobre desigualdades. Gostaríamos de saber, do seu ponto de vista, quais são os principais desafios que a América Latina e o Brasil têm pela frente em termos de desigualdade.

A desigualdade é um grande tema para a região. Apesar de termos tido algum progresso nas últimas duas décadas, ainda somos uma das mais desiguais regiões do mundo. Não apenas o Brasil, mas muitos outros países na América Latina. E a desigualdade na região vai dos recursos naturais – quem tem acesso, quem detém o recurso – ao poder econômico, político… Então, quando você olha para essas diferentes questões na América Latina, você percebe o quão desigual é a região. Principalmente quando pensamos em questões de gênero, povos indígenas e populações negras.

Você pode nos falar sobre qual é a relação entre sustentabilidade e desigualdade?

Esse é um ponto muito importante porque sustentabilidade tem forte ligação com o uso que fazemos e como operamos no meio ambiente, e a importância de ser preservar os recursos naturais para a nossa geração e as futuras. Quando você olha para as desigualdades, uma questão central é como esses recursos são distribuídos. Mas quando você pensa no impacto das mudanças climáticas, você percebe que as pessoas que sofrem mais ou as que têm menos capacidade para se recuperar de algum desastre natural, por exemplo, são as mais vulneráveis. Portanto, quando se fala em sustentabilidade, tem que se falar também em desigualdade. Como enfrentá-la, a desigualdade social e a econômica. Porque a pressão sobre os recursos naturais também vem das necessidades sociais e econômicas das pessoas. Por outro lado, também temos que nos preocupar com o meio ambiente. Então, acredito não ser possível falar sobre desenvolvimento sustentável sem o enfrentamento às desigualdades.

Nesse sentido, quais políticas temos que ter?

Primeiro, temos que resolver a questão básica da desigualdade de terras, como distribuímos a terra, como a usamos, como a exploramos. Se olharmos pela perspectiva ambiental, podemos ver que temos um problema crescente de desmatamento. Temos muitos desafios nesse setor. A política de redistribuição é importante para o Brasil mas também para os demais países da região.

A outra questão é sobre renda e riqueza. Realmente temos que ter justiça fiscal em nosso país e na região. É tão absurdo ver que as pessoas que estão no topo da pirâmide, as mais ricas, que recebem mais dinheiro, são as que menos pagam impostos. E as pessoas mais pobres são as que mais pagam.

E também temos a questão de gênero. Não podemos caminhar para um mundo mais justo sem enfrentar a desigualdade de gênero. Os direitos básicos das mulheres têm que ser respeitados. Não precisamos criar nada ‘mágico’ para isso, há coisas simples, políticas, para mudar essa realidade (de desigualdade de gênero).

Então temos muitos desafios…

Sim, muitos desafios, mas também muitas oportunidades… Quando falamos sobre desigualdades, tem uma coisa importante a dizer: desigualdades são criadas por nós mesmos. As desigualdades foram criadas pela sociedade. Não é algo que caiu do céu e oh! temos desigualdade. Então, se criamos, podemos resolver.

LEIA TAMBÉM:

Terrenos da Desigualdade: terra, agricultura e desigualdade no Brasil rural

A Distância que Nos Une: um retrato das desigualdades brasileiras

Pobreza e desigualdade no campo são temas de Conferência em Roma

O mundo tem hoje mais de 800 milhões de pessoas vivendo na extrema pobreza, e a maior parte está nas áreas rurais do planeta. Quais as estratégias e programas necessários (e já existentes) que possam dar um fim à pobreza no campo e ajudar a cumprir o compromisso estabelecido pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, de ‘não deixar ninguém para trás’?

É o que representantes de governos, empresas, sociedade civil e universidades estarão discutindo esta semana naConferência sobre Desigualdades Rurais (2 e 3 de maio, em Roma, Itália), organizada pelo Escritório Independente de Avaliação do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD, na sigla em inglês).

Katia Maia, diretora da Oxfam Brasil, participará do evento, no painel “Indo além dos direitos para reduzir as desigualdades”, no segundo dia de atividades.

“A concentração de terras e também do financiamento e outros recursos agrícolas mantêm os benefícios e valores gerados nas mãos de poucos. A desigualdade é um assunto multidimensional que segura as pessoas na pobreza e compromete o desenvolvimento”, afirma Katia Maia.

A Conferência de dois dias em Roma está dividida em quatro temas:

– Recursos: quais recursos precisam ser redistribuídos, em qual extensão e como?
– Resiliência: como o risco pode ser redistribuído para eliminar a punição dupla sobre os mais vulnerárveis?
– Relações: como as relações podem ser rebalanceadas para que aqueles ‘deixados para trás’ possam ser contados, reconhecidos e ter voz?
– Direitos: como políticas, leis e direitos servem para remediar e como meios para a institucionalizar a igualdade?

Algumas sessões terão transmissão ao vivo – para assistir, clique aqui.

Leia nosso relatório Terrenos da Desigualdade: Terra, Agricultura e Desigualdade no Brasil Rural

Oxfam Brasil participa do Fórum Social Mundial 2018

O presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Oded Grajew; a diretora executiva da organização, Katia Maia; e o coordenador de campanhas, Rafael Georges, participam esta semana da 13ª edição do Fórum Social Mundial, em Salvador (BA), para discutir o tema das desigualdades.

As apresentações da Oxfam Brasil vão ocorrer na quarta (14/3) e quinta-feira (15/3), sempre no Campus Ondina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Katia Maia participará do debate Desigualdades – Quais, Por Que, Até Quando?, das 12h às 13h15 de quarta-feira (14/3), dentro do Colóquio Brasil “Estado de Exceção – Desigualdades, Fragilidade Democrática e Poder das Elites, no auditório da Faculdade de Direito da UFBA, juntamente com Tereza Campello, ex-ministra de Desenvolvimento Social e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz.

Já Oded Grajew e Rafael Georges participarão, na quinta-feira (15/3) das 9h30 às 12h45, do seminário “Caminhos para a redução das desigualdades no Brasil – Por um Brasil mais igual, justo e solidário”, que faz parte da temática “Território Desenvolvimento, Justiça Social e Ambiental” do Fórum. Outros convidados desta sessão são: Iara Pietricovsky (Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC ), Jorge Abrahão (Programa Cidades Sustentáveis e Rede Nossa São Paulo), Frei Betto (escritor), Cida Bento (Centro de Estudos das relações do Trabalho e Desigualdades  – CEERT e Fórum Permanente pela Igualdade Racial e da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras). Realizado pelo Programa Cidades Sustentáveis, o seminário será no Pavilhão de Aulas da Federação (PAF) III da UFBA – Sala 308.

Assim como os demais eventos do Fórum Social Mundial, as duas participações da Oxfam Brasil darão espaço ao debate democrático sobre as causas e consequências das desigualdades brasileiras, seja ela de renda, patrimônio, raça ou gênero, conforme diagnóstico feito no relatório A Distância Que Nos Une – Um Retrato das Desigualdades Brasileiras, lançado em setembro do ano passado.

Para ver o relatório, clique aqui.

A expectativa é de que 60 mil pessoas, vindas de várias partes do mundo, estarão na capital baiana durante esta semana. Com o lema “Resistir é criar. Resistir é transformar!”, o objetivo do Fórum é repensar o papel do ser humano na busca de “Um outro mundo possível”.