Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

“A questão racial e de discriminação das mulheres precisam ser tratadas como prioridades”

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), conjunto de 17 metas globais estabelecidas pela ONU a serem cumpridas até 2030, precisam ser apropriados pela sociedade brasileira e dar prioridade às questões relacionadas ao racismo e discriminação das mulheres para que haja avanços no Brasil em relação ao enfrentamento das desigualdades, afirmou Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, durante o seminário de lançamento do projeto de fortalecimento daRede Estratégia ODS, realizado segunda-feira (29/4) em São Paulo.
 
“Para além das das questões econômicas, a questão racial e de discriminação das mulheres precisam ser tratadas como prioridades em nosso país, isso é fundamental”, afirmou Katia, que participou da mesa “As Desigualdades de Gênero, Raça e Geracional” do seminário, que teve como tema geral as “Parcerias Multissetoriais para os ODS: o Desafio da Redução das Desigualdades”.

Katia apresentou alguns dos principais resultados da pesquisa da Oxfam Brasil feita em parceria com o Instituto Datafolha sobre as percepções dos brasileiros em relação às desigualdades no país – clique aqui para acessar a pesquisa.

“Tem algumas interessantes na pesquisa, como por exemplo o fato de que 86% da população concorda que é necessário reduzir as desigualdades econômicas entre pobres e ricos para o progresso do país”, disse Katia. “Essa pesquisa trás para nós desafios e oportunidades para o nosso trabalho de enfrentamento das desigualdades e, especialmente, na construção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da apropriação dos ODS pelo conjunto da sociedade brasileira.”

Essa apropriação dos ODS, segundo Katia, passa necessariamente pela participação direta das pessoas que são mais vulneráveis. “Temos que garantir que, quando falamos de juventude, a gente traga os jovens para falar. Tem muita coisa importante e criativa acontecendo com essa juventude negra que é massacrada diariamente.”

O projeto de fortalecimento da Rede Estratégia ODS é coordenado pela Fundação Abrinq em parceria com a Agenda Pública, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP), com financiamento da União Europeia. Tem como objetivo discutir as diversas dimensões da desigualdade social a partir da perspectiva dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), bem como parcerias, experiências e soluções concretas aos desafios da redução das desigualdades.

 

1 ano sem Marielle: mataram uma voz, levantaram milhares!

Hoje faz um ano da morte de Marielle Franco, assassinada covardemente com 13 tiros na região central do Rio de Janeiro juntamente com o motorista Anderson Pedro Gomes. A evidente execução premeditada da vereadora e ativista dos direitos humanos tinha como objetivo calar uma poderosa voz – feminista, negra, lésbica, política – mas teve o efeito contrário, fazendo surgir milhares de outras vozes, para levar adiante sua luta e suas bandeiras.

Bandeiras como as que defendia em seu mandato como vereadora do Rio de Janeiro e também como presidenta da Comissão da Mulher da Câmara Municipal, a favor daquelas pessoas que são mais discriminadas, em especial as mulheres pobres e pretas das muitas comunidades, periferias e favelas de sua cidade.

Marielle, moradora da Favela da Maré, conheceu de perto todo o racismo, o preconceito e a violência associados a esse universo. Sabia como poucas sobre a existência de inúmeras Marielles expostas às desigualdades de raça, gênero e renda e que esse não é um problema ‘natural’, mas sim fruto de decisões políticas, racistas e machistas.

Trabalhou incansavelmente em favor de uma maior ocupação da política como forma de fortalecer a democracia e lutar contra as desigualdades. Ela compreendia – e nós assinamos embaixo – que as pessoas têm o direito de participar das decisões que influenciam o acesso delas a serviços públicos básicos, como educação, saúde, transporte e moradia.

A polícia do Rio prendeu ontem (terça-feira, 12/3) dois suspeitos de serem os autores do crime. Ainda não sabemos, entretanto, quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes. Que as respostas sejam dadas à sociedade com a mesma determinação com que Marielle exigiu os direitos de quem menos tem e mais sofre.

Marielle, presente!

Anderson, presente!

 

Dia Internacional da Mulher: nossa contribuição pelo mundo

Cinco histórias revelam como a Oxfam trabalha pela valorização das mulheres

Nós acreditamos no potencial das mulheres e estamos sempre prontos a contribuir com projetos e atividades que reforcem o papel feminino na sociedade. Por isso desenvolvemos no Brasil e no mundo projetos de formaçao e autonomia financeira, além de encontros e oficinas, que contribuem para o empoderamento das mulheres, valorizando e fortalecendo sua luta contra o machismo, a violência doméstica, a desigualdade de renda no trabalho.

Neste Dia Internacional da Mulher – 2019, reunimos algumas histórias de nossa atuação pelo mundo que ajudam a colocar as mulheres em seu devido lugar: como protagonistas de sua própria vida e de suas comunidades!

HOURIYA CHAIEB – TUNÍSIA

Houriya tem 20 anos e vive com seus pais e irmão em uma fazenda nos arredores da cidade de Jebiniana, na Tunísia. Ela participou do programa de Emprego e Participação para a Juventude da Oxfam, e nele aprendeu panificação e pensa agora em montar seu próprio negócio. “Muitas meninas nascem, vão à escola por algum tempo, se casam e a maioria delas fica em casa. Não quero essa vida. Se você tem seu próprio negócio, você tem mais oportunidades.”

MARIA DA GRAÇA AMORIM – BRASIL

Agricultora familiar de Alcântara, no Maranhã, Maria da Graça é integrante da Coordenação Nacional de Mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Contraf). Ela participou da oficina organizada pela Oxfam Brasil em São Paulo com 15 mulheres de comunidades rurais, movimentos do campo, agriculturas, quilombolas, lideranças de povos indígenas e comunidades tradicionais, de diversas regiões do país para debater a desigualdade no campo. “Para nós, mulheres, o direito à terra é um direito sagrado. Temos uma relação muito forte com isso, porque é uma relação de troca.”

KARLA PATRICIA GUTIÉRREZ – EL SALVADOR

Karla é funcionária da Oxfam em um projeto que, em parceria com outras organizações de El Salvador, trabalha para reduzir a violência contra mulheres e meninas no país. “Sinto-me feliz, motivada, e empoderada para fazer esse trabalho, mas é sempre uma luta. Temos níveis altos de feminicídios no país. As meninas agora reconhecem quando estão prestes a sofrer assédio ou violência, elas nos contam e nós denunciamos.”

DOLLY KUMAR – CANADÁ

Dolly, de 14 anos, aprendeu kick-boxing e sobre os direitos das meninas em reuniões de um projeto da Oxfam em seu país. “Eu sonho com um mundo onde garotas tenham os mesmos direitos que os garotos. As meninas não devem ficar confinadas em quatro paredes. Elas precisam sair, estudar e perseguir seus sonhos.”

ADDISE – ETIÓPIA

Addise participa de um projeto desenvolvido pela Oxfam que está formando sua comunidade para a produção, distribuição e venda de mel. A abordagem da Oxfam ao implementar este projeto inclui a produção moderna de colmeias, treinamento de habilidades básicas em apicultura moderna, além de alfabetização funcional integrada de adultos, em que as mulheres aprendem também sobre saúde reprodutiva, leitura e escrita. “Fazer parte desse treinamento e me ver entrando na sala de treinamento e falando em público foi o dia mais emocionante e inesquecível da minha vida. Parecia que eu estava na escola novamente e eu tinha começado um novo capítulo na minha vida.”

Influência e inovação digital na luta contra a violência machista

Ativistas feministas da América Latina, Europa e Africa participaram de evento em Madri (Espanha) na semana passada (de 26 a 28 de janeiro), a convite da Oxfam Intermón, para fortalecer alianças e redes entre as participantes e suas organizações contra a violência sexista.

As atividades desenvolvidas focaram na análise da revolução digital como oportunidade para desenvolver iniciativas de combate à violência sexista e táticas e estratégias conjuntas para fortalecer a luta do movimento feminista.

Larissa Santiago, coordenadora do site Blogueiras Negras, parceiro da Criola, organização que integra o programaJuventudes nas Cidades, foi a representante da Oxfam Brasil no encontro. “Foi bastante rico, criar uma rede de alerta internacional de feministas com diferentes origens, perspectivas e objetivos. Haviam também diferentes experiências no que se refere ao combate a violência de gênero online, desde denúncias até campanhas de conscientização. Eu saio com uma bagagem com muitas estratégias e com bastante inspiração pra continuar.” declarou.

O programa Juventudes nas Cidades visa aumentar a capacidade de mobilização e organização da sociedade civil, fortalecendo coletivos e movimentos de jovens que atuem para a superação das desigualdades sociais, de raça e gênero.

 

Mulheres rohingya vivem situação risco em campos de refugiados inadequados

As refugiadas rohingya que vivem em Bangladesh enfrentam problemas de saúde, não têm acesso a assistência vital e correm maior risco de serem abusadas nas instalações inseguras e inadequadas de muitos campos de refugiados.

Uma pesquisa da Oxfam e de agências parceiras mostrou que mais de um terço das mulheres não se sentem seguras ​​para buscar água ou usar os banheiros e que muitas não têm abrigos com porta e fechadura. 50% das mulheres e 75% das adolescentes reclamam da falta de itens de higiene feminina, incluindo um local exclusivo onde elas possam lavar os panos usados para conter o fluxo menstrual sem constrangimento.

Como resultado, as mulheres passam fome e sede para evitar usarem o banheiro. Com isso, sofrem com dores abdominais e infecções. Instalações inadequadas também aumentam o risco de abuso sexual e assédio. Centenas de incidentes de violência de gênero são relatados a cada semana

A Oxfam solicitou que 15% do valor dos próximos pacotes de ajuda internacional sejam destinados a programas humanitários que apoiem mulheres e meninas – incluindo U$ 72 milhões dos quase meio bilhão de dólares recentemente liberados pelo Banco Mundial.

Atualmente, não há um orçamento específico para as necessidades das mulheres em situação de emergência.

O governo e as agências de Bangladesh forneceram ajuda emergencial para mais de 700.000 rohingyas que chegaram ao país no último ano, mas o número de pessoas no maior campo de refugiados do mundo não para de crescer.

A gerente de Advocacy da Oxfam na cidade de Cox’s Bazar, Dorothy Sang, declarou: “A velocidade vertiginosa com que a crise dos refugiados Rohingya se desenrolou fez com que muitos abrigos de emergência fossem instalados às pressas, sem que as necessidades específicas das mulheres fossem consideradas”.

Mulheres e meninas agora pagam o preço em termos de bem-estar e segurança. “Isso precisa ser solucionado urgentemente com recursos suficientes para apoiar e proteger as mulheres Rohingya, como iluminação para melhorar a segurança, banheiros e lavanderias que ofereçam privacidade e assistência extra para as mais vulneráveis.”

A Oxfam está trabalhando com organizações locais e refugiados para que sua resposta humanitária seja efetiva em apoiar mulheres e meninas. Isso inclui a instalação de luzes a base de energia solar, a distribuição de lâmpadas portáteis, a promoção de debates com as mulheres sobre questões como segurança e casamento infantil, o trabalho comunitário para combater a violência contra as mulheres e promover a participação dos próprios refugiados no desenvolvimento de banheiros com as características necessárias, como portas com trancas, prateleiras para manter as roupas longe do barro no chão e garantir a privacidade.

como atuamos em emergências

Sang acrescentou: “O governo de Bangladesh deve ser elogiado por permitir que o povo Rohingya busque refúgio em Cox’s Bazar. Nos juntamos a eles e a outras vozes para convencer o governo de Mianmar a discutir as políticas discriminatórias que são a causa principal dessa crise”.

Cerca de um milhão de rohingyas buscaram refúgio em Bangladesh após uma campanha militar contra eles em Mianmar, descrita por funcionários da ONU como ‘limpeza étnica’.

Saiba mais sobre a situação dos rohingya:

https://www.youtube.com/watch?v=gTlMkYMlM-0
Elas geram riqueza mas não são devidamente reconhecidas e remuneradas

Qual a importância do trabalho da mulher na economia brasileira? Quais as políticas públicas necessárias para promover a autonomia econômica e pessoal das mais de 100 milhões de mulheres brasileiras? Elas têm peso cada vez na geração de riqueza do país, mas ainda não vêm suas atividades devidamente reconhecidas e remuneradas, principalmente quando o assunto é trabalho doméstico e de cuidado de idosos e crianças. Os desafios são enormes.

“Não raras são as vezes em que as mulheres são compelidas a abandonarem seus empregos para se dedicarem a um membro da família enfermo ou que necessita de cuidados, ou até mesmo fazer escolhas que permitam melhorar a conciliação do trabalho produtivo e reprodutivo”, afirma Marilane Teixeira, economista e doutora em desenvolvimento econômico e pesquisadora na área de relações de trabalho e gênero. Ela é autora do estudo “Empoderamento Econômico das Mulheres no Brasil – Pela Valorização do Trabalho Doméstico e do Cuidado”, em parceria com Nalu Faria, psicóloga e coordenadora da Sempre Viva Organização Feminista (SOF), e apoio da Oxfam Brasil.

O estudo sugere algumas propostas de políticas públicas para as mulheres envolvidas com trabalho doméstico e de cuidados, urbanas e rurais. “Dar visibilidade a esse trabalho é uma forma de reconhecer o valor do trabalho feminino para a sustentabilidade da vida humana e, portanto, uma obrigação de toda a sociedade – e não apenas do público feminino”, diz Marilane, que nos concedeu esta entrevista para falar sobre o estudo:

Quais são os principais entraves hoje para o empoderamento econômico das mulheres no Brasil?

Parte-se da constatação de que a sociedade está fundada em uma estrutura dicotômica que, além de separar as duas esferas pública e privada, hierarquiza e atribui papéis sociais diferenciados para mulheres e homens.

Essa assimetria gera uma desigual repartição entre os sexos em todas as esferas da vida, e leva a um questionamento sobre os limites conceituais inerentes à definição da própria participação da força de trabalho feminina e os seus condicionamentos, marcados por práticas sociais discriminatórias que desfavorecem a integração das mulheres na estrutura produtiva, ao mesmo tempo em que reforçam o seu papel reprodutivo, fortalecendo a divisão sexual do trabalho que se expressa nos mais distintos âmbitos da vida e, no mercado de trabalho, na sua desproporcional participação em ocupações a que são conferidas características próprias, na maioria das vezes, associadas unicamente ao sexo dos indivíduos.

Neste sentido, negligenciam-se as motivações que levam as mulheres a se incorporarem nos empregos mais precários e o quanto as suas “escolhas” estão determinadas por suas condições materiais e pelos novos arranjos familiares, distantes de modelos formais e tradicionais de famílias. As mulheres são compelidas a postos de trabalho mais precários na tentativa de conciliar a atividade produtiva e reprodutiva em contextos em que não há compartilhamento das responsabilidades familiares e ausência de políticas públicas. Por outro lado, se reconhece a existência de uma relação específica entre o processo de produção e reprodução social, por meio do trabalho doméstico não remunerado, fundamental para o funcionamento de um sistema econômico que se mantém com o enorme volume de trabalho não pago realizado pelas mulheres e que garante a funcionalidade do sistema.

Portanto, alterar as condições em que se dá a socialização do trabalho doméstico não remunerado, por meio, do compartilhamento das tarefas de reprodução social e alterar a estrutura produtiva de forma que a produção de bens públicos seja prioridade para libertar as pessoas de determinadas obrigações, principalmente com a tarefa de cuidados, são indicações que podem contribuir para uma nova perspectiva para as mulheres.  

Como o Estado pode contribuir para tornar o trabalho doméstico no Brasil mais equitativo e valorizado?

Afrontar a profunda desigualdade em relação ao trabalho doméstico e de cuidados pressupõe problematizar uma possível visão homogênea dos quatro níveis de provisão de cuidados: família, mercado, Estado e comunidade. Em particular é fundamental reforçar o papel do Estado e buscar diminuir o papel do mercado. Essa perspectiva inclusive é o que poderá contribuir para que as políticas de conciliação sejam mais efetivas para garantir um horizonte de alteração das bases da desigualdade de classe, raça e gênero.  Essa proposição está vinculava à compreensão que a lógica do mercado, de acumulação é incompatível com a lógica de colocar o cuidado no centro, como prioridade.

Para tanto há que ampliar a oferta de creches e escolas em período integral garantindo a dimensão de um projeto pedagógico que reforce a igualdade de gênero, mas que também garanta a dimensão da alimentação, elemento fundamental para diminuir as tarefas no interior das casas. Da mesma maneira é imprescindível que sejam efetivadas outras políticas públicas de saúde, por meio de redes de assistência social; a estruturação de redes de serviços de cuidados de longa duração para a população idosa; políticas de saneamento e habitação, somente em 2014 foram concedidas 3,5 milhões de unidades habitacionais, sendo 1,8 milhão para famílias de baixa renda, as mulheres representavam 80% dos contratos firmados no programa Minha Casa Minha Vida; transporte público de qualidade uma vez que são as mulheres e os jovens os principais usuários.  As evidências demonstram que quanto maior o acesso à infraestrutura melhores são as condições para a provisão do trabalho de cuidados no âmbito das famílias.

Quais as principais políticas públicas necessárias para a correta valorização do trabalho doméstico no Brasil?

Não raras são as vezes em que as mulheres são compelidas a abandonarem seus empregos para se dedicarem a um membro da família enfermo ou que necessita de cuidados, ou até mesmo fazer escolhas que permitam melhorar a conciliação do trabalho produtivo e reprodutivo. Essas responsabilidades precisam ser redimensionadas e compartilhadas com o poder público, mas para isso é necessário a construção de novos valores com menos mercado e mais cuidado com a vida humana.

Uma das políticas públicas mais importantes e que favorece diretamente as mulheres mais pobres e contribui para melhorar a sua inserção no mundo do trabalho é a oferta de creches públicas em horários compatíveis com a jornada de trabalho. Recentemente o IBGE divulgou um suplemento sobre os cuidados de crianças com menos de 4 anos de idade com base nos dados da PNAD de 2015. Os resultados indicaram que das 10,3 milhões de crianças com menos de 4 anos de idade, 74,4% não estavam matriculadas em creches ou escolas. Sendo que entre os responsáveis, as mulheres (83,8%) eram ampla maioria e, em torno de 45,0%, estavam ocupadas.

Dentre o universo de crianças nessa idade que não estavam matriculadas, 61,8% dos responsáveis manifestaram interesse em fazê-lo. O interesse crescia entre os estratos de renda de até 1 salário mínimo e 43,2% indicou que havia tomado alguma providência nesse sentido.

A política de creches é um aspecto fundamental para a condição de inserção e permanência das mulheres no mercado de trabalho.

O Plano Nacional de Educação estabeleceu como Meta 1 universalizar, até 2016, a educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 a 5 anos de idade e ampliar a oferta de educação infantil em creches de forma a atender, no mínimo, 50% das crianças de até 3 anos até o final da vigência do PNE (2024). Em 2013 a cobertura era de 23,2% dessas crianças, praticamente dobrou a oferta entre 2004 e 2013.  Somente entre 2014 e 2015 foram ofertadas mais de 1 milhão de vagas.

Entretanto, o orçamento para educação infantil sofreu uma forte redução de 2014 para 2017, passando de R$ 1.901,9 bilhões para R$ 332,3 milhões em valores nominais representa 17% dos recursos de 2014.

Jovens da América Latina ainda consideram ‘normal’ a violência machista

A violência machista contra as mulheres da América Latina e Caribe está muito presente na vida dos jovens da região, a ponto de considerarem ‘normais’ situações como controlar a forma como as mulheres se vestem ou censurar suas fotos nas redes sociais. É o que revela o relatório Rompendo Padrões: Transformar imaginários e normas sociais para eliminar a violência contra as mulheres (resumo executivo em espanhol), publicado nesta quarta-feira (25/7) pela Oxfam após pesquisa com jovens de 15 a 25 anos de oito países – Bolívia, El Salvador, Colômbia, Cuba, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana.

O estudo mostra que a ideia do ‘amor romântico’ nocivo é a base de crenças que levam jovens a reproduzir desigualdades e justificar ou normalizar situações de violência machista. A partir da análise dos imaginários e normas sociais que reproduzem as violências machistas, o relatório indica novos caminhos para a igualdade de gênero e um mundo livre de violência.

– Seis entre cada 10 homens de 15 a 19 anos entrevistados pela Oxfam acredita que o ciúme é uma demonstração de amor.

– 65% dos homens entre 15 e 19 anos pensam que quando uma mulher diz ‘não’ para uma relação sexual, na realidade ela quer dizer ‘sim’.

– Sete entre 10 penam que a responsabilidade pelo assédio ou agressão sexual é das mulheres, devido à roupa que elas usam.

– 40% dos jovens homens pesquisados afirmaram que se uma mulher consumiu álcool, dá condições para um homem ter relações sexuais com ela, ainda que esteja inconsciente.

– 56% das mulheres e 48% dos homens entre 20 e 25 anos têm algum conhecido próximo que sofreu violência física ou sexual no último ano.

– 7 entre 10 jovens consideram a violência machista como um problema grave em seu país.

BAIXE AQUI O RELATÓRIO “ROMPENDO PADRÕES” – arquivo PDF, texto em espanhol.

Em quase todos os países da América Latina e Caribe houve avanços legislativos contra a violência e o feminicídio nos últimos anos, mas não o suficiente. A impunidade se alimenta da tendência a considerar ‘normal’ os atos de violência contra mulheres e meninas. A presença do machismo na música, literatura, filmes, relações familiares, amizades e casais, como algo que pode tolerar e, inclusive, que muitas vezes se celebra, tem consequências concretas e graves: 86% das mulheres e homens entre 20 e 25 anos entrevistados pela Oxfam acreditam que suas amizades não interviriam se um amigo agarra-se sua namorada.

“Os dados do relatório ‘Rompendo Padrões’ demonstram que o machismo é aceito e tolerado por muitos jovens da região, onde estão 14 dos 25 países do mundo com maior número de feminicídios. Isso indica a necessidade de atuação urgente. A normalização do machismo cotidiano muitas vezes termina com as piores consequências.

Prova disso são as 1.831 mulheres assassinadas em 2016 sem motivo outro que seu gênero, de acordo com dados da Cepal. Sabemos que isso pode e está mudando, e devemos apoiar os jovens nessa transformação para que vivam livres da violência de gênero”, afirma Damaris Ruiz, coordenadora de direitos das mulheres da Oxfam na América Latina e Caribe.

Relatório da Oxfam Brasil inspira tema da próxima Bienal do Mercosul

Sempre que lançamentos um estudo ou pesquisa, ficamos na expectativa de saber como ele contribuirá para o debate público sobre as desigualdades no Brasil. Desde o lançamento de nosso primeiro relatório, A Distância Que nos Une, temos participado de inúmeras conferências, debates e seminários sobre o tema usando os dados compilados no documento, dando assim o justo e necessário destaque a uma das principais mazelas do país. Com isso esperamos não só ajudar a consolidar o debate público sobre o assunto mas também inspirar novas ações e iniciativas que possam levar a discussão adiante.

Iniciativas como a escolha do novo tema da próxima Bienal do Mercosul. Prevista para ocorrer no primeiro semestre de 2020, a Bienal terá a mulher como tema central. A inspiração veio, segundo Gilberto Schwartsmann, presidente da Fundação Bienal, do relatório da Oxfam Brasil lançado em setembro de 2017, que trouxe dados sobre as desigualdades de oportunidades para mulheres e negros no Brasil, em comparação a homens brancos.

O relatório aponta, por exemplo, que apesar de terem escolaridade média superior à dos homens (8,4 anos de estudo contra 8, respectivamente), há uma enorme diferença salarial em favor dos homens. As mulheres com ensino médio completo ganham, em média, R$ 1.338 – 66% do que ganham os homens de mesma escolaridade (R$ 2.023). Na faixa de ensino superior completo, as mulheres ganham menos ainda – 63% do que ganham os homens como mesmo nível educacional (R$ 3.022 x R$ 4.812).

“Não só há discriminação negativa contra negros e mulheres dentro das mesmas faixas educacionais, mas também com as mesmas profissões. Negros e mulheres estão concentrados em carreiras com menor remuneração, e tendem a ganhar menos que brancos e homens mesmo nestas carreiras.”

BAIXE AQUI O RELATÓRIO

Ei, G7! Está mais do que na hora de fazer a economia funcionar para as mulheres!

A economia global está gerando extrema riqueza para alguns poucos às custas – e nas costas – de mulheres pobres, que costuram nossas roupas, colhem nossa comida e cuidam de nossos filhos. “Isso tem que acabar”, afirma Winnie Byanyima, diretora executiva da Oxfam  Internacional que está em Quebec, no Canadá, para acompanhar a reunião do grupo dos sete países mais ricos do mundo, o G7. “Recomendo fortemente aos líderes do G7 a apoiar políticas feministas que comprovadamente reduzem as desigualdades econômica e de gênero. Estamos acostumados a ver os líderes falarem muito sobre empoderamento feminino; nós agora precisamos de ação efetiva do G7.”

Algumas medidas que o G7 pode tomar para reduzir as desigualdades econômicas e de gênero no mundo:

– fazer com que os mais ricos e as grandes corporações paguem uma fatia justa de impostos, e usar esses recursos para financiar serviços públicos como escolas e saúde. Isso ajuda imensamente às mulheres, fazendo com que elas possam ter mais oportunidades de trabalho, e ajuda também na redução da diferença entre homens e mulheres, criando sociedades mais igualitárias.

– reconhecer, reduzir e redistribuir o trabalho doméstico e de cuidados: investir em creches e casas de repouso para os mais velhos é uma das políticas que podem ajudar a reduzir o tempo gasto pelas mulheres em atividades não remuneradas, principalmente nos países em desenvolvimento. Isso dá às mulheres mais tempo e recursos para que possam procurar trabalho pago e oportunidades educacionais.

– introduzir orçamento de gênero em todos os níveis: mais cedo este ano, o Canadá aprovou seu primeiro orçamento focado em mulheres. Os demais países do G7 têm a oportunidade de aprender com esse processo e fazer uma análise de gênero e coleta de dados mandatória ao longo de suas políticas fiscais.

– tornar o apoio e a cooperação mais feminista: os países do G7 devem cumprir seu compromisso de gastar 0,7% de seus respectivos PIBs na cooperação internacional, e desenvolver – como o Canadá fez este ano – suas próprias políticas feministas de ajuda. Um componente-chave é incluir apoio para grupo de direitos das mulheres em países em desenvolvimento, que estão melhor posicionados a desafiar as normas tóxicas de gênero e promover igualdade de gênero.

– assegurar representação equilibrada nas negociações sobre mudanças climáticas: as mulheres pobres estão desproporcionalmente mais em risco devido às mudançcas climáticas, e muitas afirmam à Oxfam que são excluídas das discussões sobre para onde devem ir os recursos para enfrentar o problema. O G7 têm trabalhar para incluir as mulheres mais pobres nas negociações oficiais e discussões sobre finanças climáticas.

“O trabalho das mulheres está alimentando o crescimento econômico global, mas a maior parte da riqueza gerada está sendo capturada por uma pequena elite masculina”, afirma Byanyima. “Estamos propondo estratégias eficientes que podem desfazer essa injustiça e dar às mulheres mais pobres mais oportunidades para que tenham uma vida melhor. Eu desafio o G7 a mostrar liderança política e ser ambicioso em seus esforços para empoderar as mulheres.”

“A questão da terra é uma luta constante para nós mulheres”

A terra é sagrada para homens e mulheres que trabalham com agricultura. Sem ela, ficam desprovidos de meios dignos de sobrevivência e acabam sendo explorados e mantidos em condições precárias, muitas vezes de miséria, por quem concentra terras – algo comum e histórico no Brasil. Uma ampla reforma agrária é urgente, e um sonho de muita gente do campo, mas um sonho distante, sem perspectiva de ser concretizado. “A concentração de terras é um mal, não só no Brasil mas em toda a América Latina”, afirma Maria da Graça Amorim, agricultora familiar de Alcântara, no Maranhão, e integrante da coordenação nacional de mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Contraf), nossa terceira entrevistada na série sobre mulheres, direito à terra e os impactos do agronegócio na vida das mulheres do campo.

Leia aqui a primeira entrevista: Mato Grosso produz carne às custas do sofrimento indígena, diz liderança terena

Leia aqui a segunda entrevista: A gente via o agronegócio crescendo nas costas daqueles que eles massacravam

A questão da distribuição de terras no Brasil não se resume a dar terra a quem não tem, mas também a qualidade dessa terra. “Esse é um debate: que terra nós estamos acessando? Qual a terra nós queremos para a reforma agrária? Nós queremos terra de qualidade! Terra boa, produtiva, que tenha verde, porque na verdade é disso que a gente precisa.”

Maria da Graça participou da oficina que a Oxfam Brasil promoveu em São Paulo no início de maio com 15 mulheres de comunidades rurais, movimentos do campo, agriculturas, quilombolas, lideranças de povos indígenas e comunidades tradicionais, de diversas regiões do país para debater a desigualdade no campo. “Para nós, mulheres, o direito à terra é um direito sagrado. Temos uma relação muito forte com isso, porque é uma relação de troca.”

A desigualdade no campo, principalmente em relação às mulheres, foi tema de nosso relatório Terrenos da Desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural, lançado em 2016. Nele há dados que revelam, por exemplo, como as grandes propriedades rurais brasileiras receberam mais incentivos e tiveram mais acesso a créditos, pesquisa e assistência técnica, com objetivo de produzir para exportação ou atender à indústria agroindustrial, em detrimento da agricultura familiar.

Leia a entrevista:

Você atua em uma comunidade de agricultura familiar no Maranhão, nos conte um pouco sobre isso.

Fazemos essa militância de resistência no Nordeste, e no meu caso em Alcântara, no Maranhão, que tem um centro de lançamento espacial. Lutamos há 30 anos na região, porque a forma como essa base foi implantada gerou muitos resultados negativos para as comunidades quilombolas locais. Não somos contra a base espacial, mas contra a forma como ela foi implantada. Famílias foram realocadas sem critério, sem infraestrutura básica. Um empreendimento desse, mundial, que lança foguete para o mundo, e as comunidades naquela extrema pobreza. Isso nos dá base para ajudar também na discussão nacional da estratégia contra esse modelo geral implementado no Brasil – um modelo excludente, concentrador de terra e dos recursos naturais.

O Brasil é um país com tanta terra e, com tantos exemplos como esse de Alcântara, de apropriação das terras e de exclusão. Como é o papel das mulheres nessa luta pela terra e contra as desigualdades no campo?

Quando falamos de terra, do direito à terra, falamos de um direito sagrado para as mulheres. É a Mãe Terra, né? Nós mulheres temos uma relação muito forte, porque é uma relação de troca. A questão da terra é uma luta constante das mulheres. Para nós, a terra é sagrada e um meio.

Uma reforma agrária é urgente…

A reforma agrária é um sonho que ainda não virou realidade nesse país.  A terra hoje está concentrada nas mãos de poucas pessoas. Temos muita terra com pouca gente e muita gente com pouca terra. E uma dificuldade grande também é que, quando a gente consegue ter acesso a um pedaço de terra, por desapropriação, ela está totalmente devastada, destruída, muitas vezes o desmatamento causa erosão… Então esse também é um debate: que terra nós estamos acessando? Qual a terra nós queremos para a reforma agrária? Nós queremos terra de qualidade! Terra boa, produtiva, que tenha verde, porque na verdade é disso que a gente precisa.