Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

Percepção sobre as desigualdades em debate

Como os brasileiros percebem as desigualdades brasileiras e suas principais consequências? Quais políticas públicas podem reduzir essas desigualdades e tirar o Brasil do vergonhoso posto de um dos 10 países mais desiguais do mundo? Qual a expectativa em relação ao papel do governo e do Estado na redução das desigualdades? Esses e outros muitos tópicos foram debatidos na última terça-feira (9/4) no teatro Tucarena, da PUC-SP, no seminário Nós e as Desigualdades, que organizamos para discutir os resultados da pesquisa de opinião que fizemos em parceria com o Instituto Datafolha,lançada no dia anterior (8/4).

Baixe aqui a pesquisa e nossa análise sobre os resultados.

https://www.youtube.com/watch?v=swhZUeiyr3Q

Cerca de 300 pessoas foram ao Tucarena ouvir os palestrantes convidados a discutir dois temas centrais: as desigualdades no imaginário brasileiro e políticas públicas para redução de desigualdades. Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, e Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo, reforçaram a importante dos temas para o debate nacional e celebraram o grande interesse do público presente.

“Nós somos um país que estabeleceu cidadãos e cidadãs de primeira e segunda categoria, isso é inaceitável numa sociedade”, disse Katia Maia, na abertura do evento. “As desigualdades precisam ser enfrentadas para que possamos ter um país mais justo, solidário e igualitário. Enquanto pessoas foram discriminadas pela sua raça, pelo seu gênero, pela sua orientação sexual ou pelo seu endereço, nós estaremos construindo um país que não é para todos e todas.”

Para Oded, não é normal que 5% da população tenha a mesma renda dos 95% restantes nem que homens e mulheres negros sejam discriminados. “As diferenças de salários, de relações ente entre homens e mulheres, negros e brancos só mudam quando deixamos de achar que isso é normal. Aí alguma coisa vai acontecer.”

Os resultados da pesquisa e sua análise primeira foram apresentados por Rafael Georges, nosso coordenador de campanhas. “Esse estudo tem uma importância central para o debate que está sendo feito no Brasil sobre a questão fiscal, as contas públicas e quanto dinheiros o Estado tem para dar em saúde, educação, assistência para quem mais precisa”, disse ele durante sua apresentação.

Alguns dos principais números da pesquisa:

* 86% creem que o progresso no Brasil está condicionado à redução de desigualdade entre pobres e ricos.

* 57% não acreditam que as desigualdades diminuirão nos próximos anos.

* 2 em cada 3 brasileiros elegem ‘fé religiosa’, ‘estudar’ e ‘ter acesso à saúde’ como as três principais prioridades para uma vida melhor.

* 64% concordam que o fato de ser mulher impacta negativamente a renda.

* 52% concordam que negros ganham menos por serem negros.

Mediado por Tauá Pires, coordenadora de programas da Oxfam Brasil, o primeiro painel do seminário contou com a participação do documentarista Henry Grazinolli, da pesquisadora Esther Solano e do professor Jailson de Souza e Silva, diretor da Universidade Internacional das Periferias. “Estamos falando de uma estrutura sistemática de reprodução de desigualdades. Nossa questão fundamental não é que as pessoas não tem consciência das desigualdades, o problema fundamental é que elas naturalizam as desigualdades e vêem nas ações individuais as alternativas para resolver esse problema”, afirmou Jailson.

Para Esther Solano, a pesquisa revelou algo importante em relação às expectativas dos brasileiros com o papel do Estado. “As pessoas querem Estado, isso ficou evidente nas respostas sobre universalização dos serviços de educação e saúde, mas nós estamos perdendo a narrativa com o público. A narrativa que está vencendo é a do Estado mínimo, da individualização e do mérito. Essa é uma preocupação grande para mim.”

Henry Grazinoli pontuou que é preciso saber ‘furar a bolha’ para alcançar um maior número de pessoas e ser efetivo na mensagem. “Contar histórias é extremamente transformador no processo da comunicação. É preciso fazer com que as pessoas sintam o problema sobre o qual estamos falando.”

O segundo painel, sobre Políticas Públicas para Redução de Desigualdades, foi mediado pela jornalista da TV Cultura Adriana Couto e contou com a participação da economista Luana Passos, da cientista política Marta Arretche e da jornalista Flávia Oliveira.

“É fundamental pensar políticas públicas sob a luz das desigualdades. Eu acho que a partir dai é que a gente vai conseguir efetivamente combater esses níveis tão absurdos de desigualdades.

Tem que carimbar o gasto orçamentário em benefício dos mais prejudicados pelo tamanho dessas distâncias, basicamente mulheres e negros, mas, sobretudo, mulheres negras.” comentou Flávia.

A cientista política Marta Arretche defendeu a importância do salário mínimo num país como o Brasil. “O que tem sustentado famílias nesses tempos de crise são as aposentadorias e pensões. Assim, o salário mínimo foi importante tanto pro crescimento quanto pra evitar aprofundamento social da crise.”

O seminário terminou com uma apresentação musical do grupo Acústica Periférica, formado por coletivos que fazem parte do projeto Juventudes nas Cidades, uma parceria da Oxfam Brasil com diversas organizações. “É muito importante discutir sobre o imaginário dos brasileiros sobre as desigualdades, sobretudo para nós, pretos e periféricos, que somos os mais massacrados. Nossa principal pauta hoje é o direito à vida.” disse a vocalista Patrícia Meira.

Confira a íntegra do evento:

https://www.youtube.com/watch?v=HEKM9HosEGc
Redução da desigualdade no Brasil é interrompida pela vez primeira em 15 anos

Pela primeira vez nos últimos 15 anos, a redução da desigualdade de renda parou no Brasil, e também pela primeira vez, em 23 anos, a renda das mulheres retrocedeu em relação aos homens. Há 7 anos, a proporção da renda média da população negra brasileira se encontra estagnada em relação aos brancos.

Além disso, em 2016, retrocedemos 17 anos em termos de espaço para gastos sociais no orçamento federal.

As informações são do novo relatório anual da Oxfam Brasil, País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras, lançado na segunda-feira (26/11) com dados sobre as desigualdades no Brasil. O foco do estudo neste ano está na distribuição de renda e na questão fiscal (tributação e gastos sociais).

Em 2017, o Brasil tinha 15 milhões de pessoas pobres – que são as que sobrevivem com uma renda de US$ 1,90 por dia (pouco mais de R$ 7, segundo critério do Banco Mundial) -, ou 7,2% da população. Houve um crescimento de 11% em relação a 2016 (13,3 milhões de pobres, 6,5% da população). Esse é o terceiro ano consecutivo que o número de pobres aumenta no Brasil, tendência iniciada em 2015.

De 2002 a 2016, o índice de Gini de rendimentos totais per capita, medido pelas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílio (PNAD-IBGE) caiu ano após ano, mas essa trajetória foi interrompida entre 2016 e 2017.

Isso contribuiu para a nova posição do Brasil no ranking de desigualdade de renda no mundo: somos agora o 9º pior da lista.

“Infelizmente, nosso relatório revela que o país estagnou em relação à redução das desigualdades. Mais que isso, podemos estar caminhando para um grande retrocesso. E, novamente, quem está pagando a conta são os mesmos de sempre: as pessoas em situação de pobreza, a população negra e as mulheres”, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil.

Para Rafael Georges, coordenador de Campanhas da Oxfam Brasil e autor do relatório País estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras, o Brasil está seguindo um caminho que é exatamente o oposto do que deveria ser feito para reduzir desigualdades. “Cortamos gastos que chegam nos que mais precisam – estamos falando de gastos em Educação, Saúde, Assistência Social – e não mexemos no injusto sistema tributário que temos.”

Rafael acrescenta que, com algumas mudanças no sistema tributário, o Brasil poderia avançar de dois a cinco anos em redução de desigualdades, considerando a média de redução verificada no país desde a Constituição de 1988.

Para Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, “estamos deixando de cumprir a nossa Constituição Federal, a qual diz que devemos ter um sistema de arrecadação que seja justo”.

Clique aqui para baixar o relatório.

Novo modelo econômico

Artigo de Oded Grajew publicado nesta quarta-feira (19/4) no jornal Folha de S. Paulo.

O jornalista Clóvis Rossi, a quem admiro por sua competência e integridade jornalística, publicou na sua coluna nesta Folha (26/3) um artigo no qual lamenta não termos até hoje uma proposta de modelo econômico que “ofereça esperança às pessoas”.

Cita-me como idealizador do Fórum Social Mundial (FSM), cujo lema é “Um Outro Mundo É Possível” e que, segundo ele, tampouco conseguiu apresentar uma proposta de outro modelo econômico.

Não é por acaso que o Fórum Social Mundial nasceu em oposição ao Fórum Econômico Mundial (FEM). O modelo econômico defendido e propagado pelo FEM produziu uma sociedade em que, segundo relatório da Oxfam, 82% de todo o crescimento de riqueza gerada no último ano foram para o 1% mais ricos; 42 pessoas detêm a mesma riqueza que os 3,7 bilhões mais pobres; e o 1% mais rico detém mais riqueza que todo o resto da humanidade. No período compreendido entre 2006 e 2015, os trabalhadores viram sua renda aumentar em média 2% ao ano, enquanto a riqueza dos bilionários aumentou em média 13% ao ano.

Nossa biodiversidade e nossas florestas estão sendo dizimadas, e o aquecimento global produz alterações climáticas extremas, transformando terras férteis em desertos, elevando o nível dos mares e ameaçando a própria existência da espécie humana.

Um novo modelo econômico deveria ter como eixo central a redução das desigualdades e a preservação dos nossos recursos naturais e a vida no planeta. Para isso não faltam propostas. Alguns exemplos: um sistema fiscal e tributário que seja progressivo, que obrigue os ricos a pagarem proporcionalmente mais do que os pobres.

Um imposto internacional sobre todas as transações financeiras mundiais (mesmo com uma alíquota baixíssima) e o fim dos paraísos fiscais (que subtraem enormes recursos dos cofres públicos) permitiriam assegurar uma renda mínima universal a todos os habitantes do planeta. Seria o fim da miséria e da pobreza. Os enormes investimentos militares deveriam ser alocados em boa parte para investimentos sociais nos países mais pobres.

As tecnologias hoje disponíveis permitiriam mudar completamente o modelo energético baseado no petróleo e nos combustíveis fósseis.

Os recursos públicos deveriam incentivar os trabalhos não poluentes, aqueles que não agridem o meio ambiente: trabalhos nas áreas artística, cultural, esportiva, educacional, científica, médica e de preservação ambiental; atividades de apoio aos grupos sociais mais vulneráveis como crianças, pessoas com deficiência e idosos. Seria estabelecido um ciclo econômico virtuoso no qual as pessoas seriam remuneradas para melhorar a qualidade de vida da população.

Acontece que nosso problema, caro Clóvis, não está na falta de ideias, propostas, recursos e conhecimentos para um novo modelo econômico. Está na falta de vontade política e de consciência de grupos poderosos econômica e politicamente que dominam nossa sociedade e os sistemas políticos, e que resistem ferozmente a toda e qualquer medida que mude o atual modelo.

O próprio Clóvis Rossi relata no seu artigo que cobrou do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a mudança prometida no sistema tributário brasileiro e teve como resposta: “É muito difícil”.

Governos, organizações públicas e privadas, lideranças e cidadãos precisam se articular em nível local, nacional e mundial para que possam ser implementadas as propostas, já existentes, de um modelo econômico que priorize a redução das desigualdades e a preservação da vida no planeta. Precisam ganhar força política para mudar as prioridades e evitar o desastre ao qual o atual modelo econômico está nos levando, no Brasil e no mundo.

Leia aqui nosso relatório Recompensem o Trabalho, Não a Riqueza, lançado em janeiro de 2018 às vésperas do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça.

Oxfam Brasil participa do Fórum Social Mundial 2018

O presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Oded Grajew; a diretora executiva da organização, Katia Maia; e o coordenador de campanhas, Rafael Georges, participam esta semana da 13ª edição do Fórum Social Mundial, em Salvador (BA), para discutir o tema das desigualdades.

As apresentações da Oxfam Brasil vão ocorrer na quarta (14/3) e quinta-feira (15/3), sempre no Campus Ondina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Katia Maia participará do debate Desigualdades – Quais, Por Que, Até Quando?, das 12h às 13h15 de quarta-feira (14/3), dentro do Colóquio Brasil “Estado de Exceção – Desigualdades, Fragilidade Democrática e Poder das Elites, no auditório da Faculdade de Direito da UFBA, juntamente com Tereza Campello, ex-ministra de Desenvolvimento Social e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz.

Já Oded Grajew e Rafael Georges participarão, na quinta-feira (15/3) das 9h30 às 12h45, do seminário “Caminhos para a redução das desigualdades no Brasil – Por um Brasil mais igual, justo e solidário”, que faz parte da temática “Território Desenvolvimento, Justiça Social e Ambiental” do Fórum. Outros convidados desta sessão são: Iara Pietricovsky (Instituto de Estudos Socioeconômicos – INESC ), Jorge Abrahão (Programa Cidades Sustentáveis e Rede Nossa São Paulo), Frei Betto (escritor), Cida Bento (Centro de Estudos das relações do Trabalho e Desigualdades  – CEERT e Fórum Permanente pela Igualdade Racial e da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras). Realizado pelo Programa Cidades Sustentáveis, o seminário será no Pavilhão de Aulas da Federação (PAF) III da UFBA – Sala 308.

Assim como os demais eventos do Fórum Social Mundial, as duas participações da Oxfam Brasil darão espaço ao debate democrático sobre as causas e consequências das desigualdades brasileiras, seja ela de renda, patrimônio, raça ou gênero, conforme diagnóstico feito no relatório A Distância Que Nos Une – Um Retrato das Desigualdades Brasileiras, lançado em setembro do ano passado.

Para ver o relatório, clique aqui.

A expectativa é de que 60 mil pessoas, vindas de várias partes do mundo, estarão na capital baiana durante esta semana. Com o lema “Resistir é criar. Resistir é transformar!”, o objetivo do Fórum é repensar o papel do ser humano na busca de “Um outro mundo possível”.

Desigualdade no Brasil, onde você está?

O Brasil é tão desigual que a maioria da população não consegue perceber a real dimensão dessa desigualdade, desconhecendo o seu lugar de fato na pirâmide social.

A pesquisa de percepção pública que lançamos esta semana, em parceria com o instituto Datafolha, revela que 88% dos brasileiros acreditam pertencer à metade mais pobre da sociedade, e metade pensa que para estar entre os 10% mais ricos é necessário ter um ganho mensal superior a R$ 20 mil. A realidade, no entanto, é bem outra —e perversa.

Se é verdade, conforme mostrou um estudo do IBGE lançado no mês passado, que metade da população vive, em média, com menos de um salário mínimo por mês, também é fato que, para figurar no grupo dos 10% que mais ganham, basta uma renda de pouco mais de 3 salários mínimos, segundo dados de 2015 da Pnad.

Além disso, os 10% mais ricos apresentam uma enorme distância entre si, com rendas que variam de 3 a mais de 320 salários mínimos, expondo o nível de concentração da renda no país.

Essa e outras dimensões das desigualdades existentes no Brasil são desconhecidas da população, como indica a pesquisa Oxfam Brasil/Datafolha. Quando a sociedade não consegue se localizar na pirâmide social e percebê-la na sua completa e triste perversidade, a luta contra as desigualdades perde força.

A questão, no entanto, vai além da renda. Ela é estrutural. Está, sim, nos baixos rendimentos da população, mas também no acesso diferenciado a serviços públicos, no racismo, na desigualdade de gênero e na tributação, que, por exemplo, beneficia o seleto grupo dos super-ricos, com rendimentos mensais acima de R$ 80 mil.

Segundo a Receita Federal, eles podem chegar a ter isenções fiscais de quase 70%! Inadmissível!

Num país tão desigual, é urgente melhorar a distribuição de sua riqueza e garantir os direitos básicos a serviços públicos essenciais como saúde, educação e moradia.

A pesquisa que realizamos, aliás, revela que 8 entre 10 brasileiros concordam com a afirmação de que o Estado tem que atuar para garantir esses direitos. E mais: 7 em cada 10 defendem que os super-ricos devem pagar mais impostos para financiar esses serviços à população.

Esse sentimento majoritário em nossa sociedade é sinal inequívoco de que alguma coisa está fora da ordem. Os brasileiros não acreditam, segundo a pesquisa, que as coisas vão melhorar a curto e médio prazos. Esse sentimento é um sinal de alerta para os governantes. O combate às desigualdades tem que ser prioritário na agenda nacional.

Se queremos um Brasil mais igual, justo e solidário, temos que avançar em propostas que promovam uma vida mais completa e menos violenta para milhões de brasileiros e brasileiras.

A emenda do teto de gastos públicas não é uma delas. Pelo contrário, ela acirra os nossos problemas sociais ao congelar investimentos essenciais em educação e saúde. Outro ponto importante é discutir a redistribuição da carga tributária, que hoje onera os mais pobres –enquanto gastam 32% da renda em tributos, os mais ricos gastam 21%.

Nosso relatório “A Distância que nos Une”, lançado em setembro, mostra ainda a importância de combater a discriminação de raça e gênero para se reduzir as desigualdades no Brasil. É inadmissível um país que perpetua a divisão da sociedade em cidadãos e cidadãs de primeira e segunda classe.

KATIA MAIA, socióloga, é diretora-executiva da Oxfam Brasil
ODED GRAJEW é presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil e presidente emérito do Instituto Ethos; é idealizador do Fórum Social Mundial

(artigo originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 6/12)

Pesquisa Oxfam Brasil/Datafolha revela a percepção sobre desigualdades no Brasil

A maior parte dos brasileiros se declara favorável ao aumento de impostos no país desde que seja aplicado apenas aos “muito ricos” para financiar melhorias nas áreas de educação, saúde e moradia, segundo dados da pesquisa Oxfam Brasil/Datafolha, lançada nesta quarta-feira (6/12). Para 71% dos entrevistados, é preciso desonerar a classe média e os mais pobres em prol de uma maior tributação da renda dos “muito ricos”. Além disso, 72% apoiam a redução da carga indireta de impostos (aqueles cobrados sobre o consumo) e aumento da carga direta (sobre renda) para as pessoas de altíssima renda.

A forma de desigualdade mais percebida pela população é a de renda: 91% dos entrevistados concordam que, no Brasil, “poucas pessoas ganham muito dinheiro enquanto muitos ganham pouco”.

A Oxfam Brasil considera os “muito ricos” como aqueles pertencentes ao 0,1% da população, com ganhos a partir de 80 salários mínimos mensais.

A pesquisa do Oxfam Brasil/Datafolha ouviu 2.025 pessoas em todo o país, em agosto de 2017.

***  LEIA AQUI NOSSA NOTA INFORMATIVA “NÓS E AS DESIGUALDADES” *** sobre os resultados da pesquisa Oxfam Brasil/Datafolha.

E também:

Artigo Desigualdades no Brasil, onde você está?, assinado por Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, e Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, publicado nesta quarta-feira (6/12) na Folha de S. Paulo. 

Reportagem 9 em cada 10 brasileiros acham que estão entre metade mais pobre do país, publicada nesta quarta-feira (6/12) na Folha de S. Paulo, sobre os resultados da pesquisa Nós e as Desigualdades, da Oxfam Brasil/Datafolha.

O resultado do levantamento Oxfam Brasil/Datafolha ganha ainda mais força à luz de dados como os da Receita Federal, que apontam que os muito ricos brasileiros têm grande isenção de impostos. O grupo que compõe o 0,1% da população brasileira tem 66% de isenção de impostos. Já a classe média (que recebe entre 3 e 20 salários mínimos), tem apenas 17% de isenção, em média.

Dados do relatório A Distância Que Nos Une, lançado pela Oxfam Brasil em setembro passado, dão ainda maior peso aos resultados da pesquisa Oxfam Brasil/Datafolha. De acordo com o relatório, um trabalhador que vive com um salário mínimo mensal no Brasil levaria 19 anos para ganhar o que um muito rico ganha em um mês. E mais: 5% da população tem a mesma fatia da renda nacional que os demais 95%.

“Esse imenso contingente de brasileiros com baixa renda esconde a dimensão da desigualdade existente no País”, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. “As pessoas têm a impressão de que estão numa situação difícil, quando na verdade há camadas muito mais pobres do que ela”, explica. Para Katia, quando a sociedade não consegue se localizar na pirâmide social, a luta contra a desigualdade perde a força.

Soluções – Com base nesta pesquisa, a Oxfam Brasil reitera sua agenda de combate às desigualdades, com foco em seis os eixos:

1) TRIBUTAÇÃO – diminuição da incidência de tributos indiretos; aumento dos tributos diretos; aumento do peso da tributação sobre patrimônio na arrecadação total; aumento da progressividade do IRPF para as camadas de rendas mais altas, criando faixas e respectivas alíquotas; eliminação dos juros sobre capital próprio; fim da isenção sobre lucros e dividendos distribuídos; avanço no combate a mecanismos de evasão e elisão fiscal; e fim de paraísos fiscais;

2) GASTOS SOCIAIS – orçamentos públicos das esferas federal, estadual e municipal com recursos adequados para políticas sociais, e que governos os executem; expansão de gastos públicos em educação, saúde, assistência social, saneamento, habitação e transporte público; revisão do teto de gastos imposto pela Emenda Constitucional 95; e medidas que melhorem a qualidade do gasto público, tornando-o mais transparente, mais eficiente, mais progressivo e com efetiva participação social;

3) EDUCAÇÃO – drástico aumento na oferta de vagas em creches e escolas infantis, tanto pelo efeito educacional na criança quanto pelo papel de inclusão da mulher no mercado de trabalho; priorização de políticas sobre a preocupante evasão escolar – sobretudo de jovens negros – e a baixa qualidade do ensino público no País; aumento do alcance do ensino superior, sobretudo para jovens negros e de baixa renda; e implementação do Plano Nacional de Educação, o PNE;

4) COMBATE À DISCRIMINAÇÃO – políticas afirmativas para reverter o quadro de discriminação e violência; maior inserção em ambientes excludentes, como universidades, serviço público, mercado de trabalho, entre outros; combate à violência institucional, sobretudo à violência de policiais contra jovens negros e no atendimento à saúde da mulher negra; e inclusão da igualdade de gênero e valorização das diversidades nas políticas públicas como base fundamental para a superação da discriminação racial, de gênero e outras;

5) MERCADO DE TRABALHO – direito ao exercício do trabalho decente no Brasil; revisão da reforma trabalhista aprovada recentemente, nos pontos em que ocorreu perda de direitos; salário mínimo em aumento contínuo em termos reais;

6) DEMOCRACIA – mecanismos de prestação de contas e transparência, incluindo uma efetiva regulação da atividade de lobby e o fortalecimento das instâncias de participação da sociedade civil; combate à corrupção, algo central para o fortalecimento do poder público como agente de redistribuição de renda, riqueza e serviços; mudanças no sistema político, em debate amplo com a sociedade, no sentido de aprofundar nossa democracia, possibilitando a concretização das suas três dimensões, representativa, participativa e direta.

Novo relatório propõe debate público sobre as desigualdades no país

O debate público sobre a redução das desigualdades no Brasil é urgente e necessário. Vivemos hoje uma situação insustentável e injusta. Por exemplo: uma pessoa que ganha um salário mínimo por mês hoje teria que trabalhar 19 anos para receber o mesmo que um brasileiro que faz parte hoje do 0,1% mais rico do país. Mais de 16 milhões de brasileiros ainda vivem abaixo da linha da pobreza, apesar de todos os esforços feitos nos últimos anos para enfrentar o problema. Saímos recentemente do Mapa da Fome e retiramos milhões da miséria, mas os ricos continuaram concentrando riqueza. Está mais do que na hora de enfrentarmos a questão com seriedade, urgência e determinação. É o que propõe o novo relatório “A distância que nos une – um retrato das desigualdades brasileiras”, da Oxfam Brasil, lançado na última semana de setembro em São Paulo. O documento apresenta dados sobre a desigualdade socioeconômica brasileira e os caminhos possíveis para se ter um país mais justo e livre de tantos desequilíbrios sociais.

Veja aqui como foi o lançamento.

Baixe aqui o relatório A Distância que nos Une.

“Precisamos falar sobre nossas desigualdades e os caminhos existentes para reduzi-las”, afirmou Katia Maia, diretora da Oxfam Brasil, durante o lançamento do relatório. “A gente acredita que as distâncias só podem ser reduzidas em trabalho conjunto. Isso é o que nos une”, disse ela, lembrando que o Brasil conseguiu elevar a base da pirâmide social nas últimas décadas, mas em um ritmo ainda muito lento. “Atacar essa questão é responsabilidade de todos. Há inúmeras ideias e propostas circulando, algumas até formam consenso na sociedade. A única coisa que não se pode fazer é ignorar o problema e não fazer nada. Estamos juntos no mesmo barco.”

Para Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, trabalhar pela drástica redução das desigualdades no país é a missão mais nobre e mais importante que qualquer brasileiro poderia ter. “O quadro das desigualdades foi construído por todos nós brasileiros, e pode ser mudado também por todos nós. As desigualdades foram construídas, não são algo que sempre existiu”, disse ele, lembrando que os caminhos para conseguir um país mais justo e menos desigual são conhecidos e já testados por outros países. São eles: educação de qualidade, sistema tributário mais justo e ativa participação popular no sistema político.

Rafael Georges, coordenador de Campanhas da Oxfam Brasil e autor do relatório, acredita que toda a trajetória de redução de desigualdades que vinha sendo seguida desde a proclamação da Constituição de 1988 foi interrompida. “E agora estamos dando muitos passos para trás na garantia de direitos à população. Enquanto isso, a concentração de renda e patrimônio continua intocável. Se não enfrentarmos essa situação, vai ser ruim para todos no país – mas principalmente para quem pouco ou nada tem para se proteger”, afirma.

Com o relatório “A Distância Que Nos Une”, a Oxfam Brasil pretende contribuir e apresentar soluções ao debate sobre as desigualdades no Brasil, destacando que todas as pessoas, independentemente de sua classe social, sofrem as consequências. A desigualdade extrema gera conflito social, aumenta a violência e cria instabilidade política. “O Brasil só poderá dizer que é realmente um Estado democrático de direito se oferecer condições melhores para sua população. E isso não vem acontecendo”, “As desigualdades entre pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens não são um problema de poucos, mas um problema de todos. Esta é a distância que nos une”, define Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil.

O evento contou com a participação de alguns convidados, como a poetisa Joy Thamires, que deu seu recado por meio de uma forte poesia, falando sobre uma das principais questões da desigualdade no Brasil: o racismo. “Não tem como falar de desigualdade sem falar de racismo”, disse Joy, que faz parte do Hub das Pretas de Recife, um projeto apoiado pela Oxfam Brasil.

Também fizeram boas reflexões durante o evento, tocando em pontos diversos da questão das desigualdades no Brasil: Marcelo Medeiros, professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea); Danilo Miranda, diretor regional do Sesc; Cida Bento, coordenadora executiva do CEERT; e Nathalie Beghin, coordenadora da assessoria política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). 

Acompanhe em nossa página no Facebook a repercussão do lançamento do relatório.