Enfrentar as desigualdades para vencer a pobreza

Compromissos das grandes empresas de alimentação ficam pelo meio do caminho

As 10 maiores empresas de bebidas e alimentos do mundo, que são alvo de nossa campanha Por Trás das Marcas, já se comprometeram com políticas e boas práticas de fornecimento mais sustentáveis para seus produtos. Mas e as ‘traders’, que são as que fazem o elo entre os produtores e as empresas que vendem os produtos aos consumidores? Estão elas seguindo os mesmos compromissos para os impactos negativos sobre mulheres, pequenos produtores, terra e clima?

Nosso novo relatório Grandes Empresas Falaram. Será que seus Fornecedores Escutaram? revela que ainda estamos longe disso. Há uma grande falta de sintonia em relação aos compromissos assumidos pelas grandes empresas de alimentos e bebidas, como a Coca-Cola, Pepsi, Nestlé, Unilever e Kellogs, entre outras, e as companhias ‘traders’ do agronegócio. Nossa análise mostra o que pode ser feito para ajustar esse descompasso e como as grandes empresas de alimentação do mundo podem exercer seu poder para garantir que toda a cadeia de fornecedores (pequenos agricultores, trabalhadoras e trabalhadores do campo) esteja alinhada com os compromissos de sustentabilidade necessários.

“O veredito: há muita margem para melhorias. (…) Mais de 90% das pontuações dessas empresas estão abaixo de 50%. O agronegócio tem responsabilidade e oportunidade de melhorar. (…) As pontuações baixas nos vários temas apontam para lacunas importantes nos compromissos das traders com políticas e planos de implementação”

Para Gustavo Ferroni, assessor de Políticas e Incidência da Oxfam Brasil, a questão chave é a falta de sintonia entre as ‘traders’ e as grandes empresas de alimentos. “Como elas [as grandes empresas do setor de alimentação] podem afirmar que estão implementando seus compromissos, que se referem à toda a cadeia de fornecedores, se as empresas comercializadoras não os cumprem? Há um descompasso aí.”

O novo relatório da Oxfam revela, por exemplo, que no quesito ‘mulher’, as empresas falharam em ter políticas corporativas para enfrentar as barreiras de gênero impostas às agriculturas e trabalhadoras do setor de alimentos. No tema ‘terra’, o relatório mostra que o avanço da atividade econômica das corporações prejudica, sem a devida contrapartida, os territórios de comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas e outros, mundo afora. (O site O Joio e o Trigo fez uma boa matéria sobre o nosso relatório, confira aqui).

Desigualdade na comida: quem realmente lucra com a nossa laranja?

Toda comida que a gente consome é produzida por milhões de agricultores pelo mundo. Um trabalho que deveria ser cada vez mais celebrado e valorizado, mas a realidade é bem diferente. Conforme revelamos em nosso relatório Hora de Mudar, lançado em junho de 2018, quem tem ficado com fatias cada vez mais generosas do dinheiro gerado pela produção agrícola são os grandes supermercados, especialmente dos Estados Unidos e Europa, e outros gigantes da indústria alimentícia. Aos trabalhadores agrícolas, sobretudo os pequenos, sobram pobreza, sofrimento e péssimas condições de trabalho.

Vejamos o caso da laranja brasilera. Somos um dos maiores produtores de laranja do mundo – 3 de cada 5 copos de suco de laranja consumidos no mundo são produzidos no Brasil. Esse sucesso todo tem gerado muito lucro aos grandes supermercados e à indústria de suco, e pouco ou quase nada aos produtores.

Não deixe esse suco azedar! Assine a petição

A gente preparou o vídeo de animação abaixo para explicar melhor como isso vem acontecendo:

https://www.youtube.com/watch?v=3oScJa1ar6Q
Massacre de Curuguaty: camponeses são absolvidos por unanimidade no Paraguai

A Suprema Corte de Justiça do Paraguay revogou por unanimidade a sentença de 11 camponeses condenados em 2016 pelo caso conhecido como “massacre de Curuguaty“. A decisão determina a imediata libertação deles devido a sérias deficiências durante a etapa de investigação e processo penal, afirmando que não foi provada a participação dos camponeses nos delitos julgados – invasão de imóvel alheio, associação criminal e homicídio doloso.

A decisão da Suprema Corte paraguaia questiona também o trabalho da Promotoria de Justiça – alvo de muitas denúncias de organizações locais e internacionais durante os últimos seis anos -, indicando as graves irregularidades cometidas, a falta de investigação sobre a morte dos 11 camponeses e a suspeita de torturas e execuções extrajudiciais durante a operação policial de 2012.

“O caso Curuguaty revela a profunda injustiça e violência por trás da concentração de terras nas mãos de alguns poucos proprietários”, afirma Simon Ticehurst, diretor da Oxfam para a América Latina e Caribe.

Em 2014, a Oxfam juntamente com uma ampla articulação de organizações sociais iniciou uma campanha de apoiopara dar terras às famílias camponesas afetadas pelo caso Curuguaty. Apesar da pressão internacional, o governo paraguaio não deu resposta às comunidades envolvidas.

No Paraguai, 90% da terra pertence a 12 mil grandes proprietários, enquanto que os 10% restantes se dividem em 280 mil pequenas e médias propriedades, segundo o estudo Os Donos da Terra no Paraguai, publicado pela Oxfam em 2016.

Nesse contexto de profunda desigualdade na distribuição de terras, mais de 120 famílias camponesas de Curuguaty, entre elas várias vítimas e familiares das vítimas do violento despejo promovido em 2012, estão há 12 anos exigindo o uso das terras de propriedade estatal para moradia e cultivo de alimentos, como parte da reforma agrária prevista na Constituição do Paraguai.

“Consideramos a revogação da condenação dos camponeses um grande avanço na busca por Justiça”, diz Ticehurst. “Esperamos que o Estado promova agora uma investigação completa, imparcial e independente do caso Curuguaty, de acordo com as recomendações do Conselho de Direitos Humanos da ONU, e garanta uma reparação integral a todos os que foram afetados pelo caso, incluindo aí acesso à terra para as famílias camponesas.”

Terrenos da Desigualdade

Em 2016 lançamos o relatório Terrenos da Desigualdade, mostrando como a desigualdade extrema tem múltiplas origens e traz sérias consequências negativas para a garantia de direitos e o desenvolvimento sustentável. Entre suas causas estruturais está a concentração da terra, um fator de preocupação na América Latina e, em especial, no Brasil. A concentração da terra está ligada ao êxodo rural, à captura de recursos naturais e bens comuns, à degradação do meio ambiente e à formação de uma poderosa elite associada a um modelo agrícola baseado no latifúndio de monocultivo, voltado à produção de commodities para exportação e não para a produção de alimentos. É preciso reconhecer que a desigualdade é um grave e urgente problema no Brasil e que sua solução passa por transformações em suas causas estruturais.

 

Projetos da Oxfam ajudam agricultores de Gana a enfrentarem a ‘temporada da fome’

De junho a agosto, quem vive no norte de Gana tem que se planejar muito para não ficar sem o que comer. É a ‘temporada da fome’, dizem os locais, época em que a seca deixa o solo praticamente inutilizado para qualquer tipo de plantação. Hoje, cerca de 75% das famílias da região não têm comida suficiente devido às más condições climáticas e à falta de infraestrutura básica para auxiliá-los em tempos difíceis. Os níveis de pobreza são duas ou até três vezes maiores do que a média nacional e as mudanças climáticas estão agravando o problema – as chuvas têm se tornado mais imprevisíveis e intensas, com períodos alternados de secas e inundações.

Mary Paula Lanuzie, de 62 anos, sabe bem disso e dá a receita para enfrentar as condições adversas: “Nessa época do ano, a sobrevivência é uma questão de planejamento e gerenciamento (dos recursos).” Ela vive em Goziir, pequeno vilarejo na região norte de Gana, com seu marido e seis membros da família. Além de economizar grãos e planejar bem para sobreviver durante a ‘temporada da fome’, Mary tem se beneficiado dos projetos que a Oxfam vem oferecendo para ajudar pequenos agricultores a melhorarem suas plantações e aumentarem seus rendimentos – desde que começou com os treinamentos, já conseguiu dobrar sua renda com a plantação de milho.

“Estamos sabendo economizar. Em nossa casa, temos comida. Estamos felizes”, diz Mary, lembrando um aspecto importante para o sucesso. “Nossa comunidade se dá bem e as mulheres aqui são muito unidas. Nós entedemos que precisamos ajudar umas as outras.”

Cerca de 70% dos treinamentos oferecidos pela Oxfam apoiam especificamente as mulheres, que não têm as mesmas oportunidades que os homens para conseguirem meios de se sustentarem. Os projetos indicam novos métodos agrícolas e atividades alternativas de geração de renda, como a criação de abelhas e produção de mel, criação de gado, compostagem e construção de fornos energeticamente eficientes.